segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

4. Conclusão Possível: As Esperanças Contidas


Escreve: Luiz Signates
Em: Junho de 2010


Parte 04



4. Conclusão Possível:
As Esperanças Contidas

Haverá um movimento espírita democratizado no Brasil? Conseguirão os espíritas reverter o quadro institucionalizado que se formou e produzir uma esfera pública capaz de realizar os sonhos iluministas de origem? Ou sucumbirá como movimento social, vítima de seu próprio sucesso institucional, convertendo-se de uma vez por todas em uma simples religião organizada, reduzido à expressão terapêutica junto às camadas médias e altas da sociedade brasileira e à solidariedade despolitizada e caritativa na atuação junto aos bolsões de miséria, sem jamais discutir as causas estruturais da sua miséria ou incluí-los na sua própria composição social?

Tais questões, angustiantes tanto para adeptos quanto para simpatizantes de um movimento que desfruta de legitimidade e admiração pela população brasileira, não podem ser teoricamente respondidas. Apenas o futuro é capaz de afirmar as opções coletivas do espiritismo organizado.

Três proposições, coligadas de forma dialética, contudo, pareceram-nos muito claras ao longo da construção deste trabalho e, por isso, com elas encerramos estes comentários. Primeiro, a necessidade da democratização que, hoje, parece ser uma exigência radical de sobrevivência e reestruturação de um modelo de espiritismo capaz de oferecer respostas à sociedade ou, nos termos dos prognósticos de Allan Kardec (1863), de alcançar o “período da renovação social” (6). Segundo, a preocupante improbabilidade de que isso aconteça, devido ao estado avançado em que se encontra a estruturação sistêmica das instituições espíritas no Brasil. E terceiro, a possibilidade de relativização dessa hipótese pessimista, a partir do potencial criador de setores do movimento espírita sintonizados com as demandas sociais e suficientemente abertos para se repensar as condições de produção do pensamento e da prática espírita.

Neste terceiro nível, deve-se mencionar a atuação da Confederação Espírita Pan-Americana que, aparentemente, abre novas possibilidades de análise. Entretanto, embora demonstre uma vocação muito mais democrática, em seu modo de funcionamento, este movimento não está inteiramente ausente de alguns dos sentidos que este artigo questiona. Cabe-nos, pois, observá-lo e colocar em debate essas e outras questões, a fim de que se possa ajuizar de forma mais consentânea as indicações que virão do futuro, a partir das respostas concretas da história, forjadas pela iniciativa coletiva dos espíritas.

Notas do Pense

(1) Jürgen Habermas, sociólogo e filósofo alemão, integrante e herdeiro da chamada Escola de Frankfurt.
(2) Oscal, sigla de Organização Social Cristã-Espírita André Luiz.
(3) O Racionalismo Cristão, surgido a partir de uma dissidência do movimento espírita brasileiro, foi fundado pelo português Luiz de Mattos em 1910.
(4) A Legião da Boa Vontade (LBV) é um movimento religioso e assistencial fundado por Alziro Zarur em 1950, no Rio de Janeiro, a partir de uma revelação mediúnica a ele dirigida, em uma sessão espírita realizada em 1948, na sede da Federação Espírita Brasileira. Desde 1979 a LBV é dirigida por José de Paiva Neto.
(5) Confraternização Nacional das Campanhas de Fraternidade Auta de Souza - Promoção Social Espírita, movimento itinerante surgido há cerca de 50 anos, em Goiás, à margem do movimento espírita oficial, e que se caracteriza pela realização de encontros nacionais durante o carnaval, com o objetivo de dinamizar as campanhas Auta de Souza.
(6) Allan Kardec formulou, na Revista Espírita (dezembro de 1863), o desenvolvimento histórico do espiritismo em seis períodos: o período de curiosidade, filosófico, de luta, religioso, intermediário e o último período, que ele denominou de regeneração social.

Bibliografia

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Fonte: Trabalho apresentado na XIV Conferência Regional Espírita, realizada em São Paulo, capital, de 14 a 17 de setembro de 2002. O evento foi promovido pela Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA).

Luiz Signates é jornalista, pesquisador e professor adjunto da Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da Universidade Federal de Goiás (UFG). Especialista em Políticas Públicas pela UFG, Mestre em Comunicações pela UnB e Doutor em Ciências da Comunicação pela ECA/USP. É atualmente coordenador do Núcleo de Pesquisas em Comunicação e Política - NPCP/UFG/CNPq, do Curso de Marketing Político da UFG e do curso de Publicidade e Propaganda da Faculdade Cambury, de Goiânia. Em movimentos sociais, atua hoje como presidente do Instituto de Comunicação Social Espírita - ÍCONE e da Fundação de Rádio e Televisão Educativa e Cultural de Goiás – FRTVE; é Diretor de Política Nacional de Comunicação da Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo - ABRADE.

Publicado anteriormente no site Pense – pensamento social espírita: http://www.viasantos.com/pense/arquivo/1256.html

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