segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

2. Espiritismo e Modernidade: Entre o Saber e a Democracia


Escreve: Luiz Signates
Em: Junho de 2010



Parte 2

2. Espiritismo e Modernidade:
Entre o Saber e a Democracia

Indubitavelmente, o conhecimento científico e a democracia são as grandes e irrenunciáveis conquistas da modernidade. Mesmo que, no âmbito do pensamento econômico, ainda se possam identificar posturas anticapitalistas consistentes ou, no quadro das opções culturais, seja viável uma crítica fundamentada do consumismo e da colonização ideológica e etnocida, mesmo assim, todas estas possibilidades críticas, capazes ou não de fundar movimentos contestatórios orientados à transformação social, apenas seriam possíveis com a manutenção da racionalidade filosófico-científica como conquista máxima do pensamento, e da racionalidade ético-pragmática da democracia como conquista máxima da política.

Importante considerar que, nesta análise, não se quer cerrar os olhos para o regime de tensão que constitui a própria convivência destas duas racionalidades entre si. Numa rápida análise pragmática, parece simples constatar que, por um lado, a racionalidade filosófico-científica, domínio da episteme, tende a exacerbar a sua pretensão de verdade e, com isso, afirmar os demais setores do pensamento como “irracionais” ou “falsos” e, por outro, a racionalidade da política e da democracia, âmbito da doxa e da retórica, tende ao populismo e à demagogia, especialmente em sociedades como as contemporâneas, onde as tecnologias de comunicação se superpõem, a tudo virtualizando num jogo sem fim de imagens e discursos. Nem o saber especializado e sistematizado admite fácil a livre circulação da opinião comum, nem as escolhas democráticas podem ser necessariamente vinculadas nem mesmo às condições do saber e da informação historicamente conquistadas e disponíveis. Não há, contudo, como dispensarmos qualquer dessas conquistas, pois os reinos da ignorância e do despotismo, condições opostas àquelas racionalidades, são igualmente indesejáveis.

Esse posicionamento, contudo, embora predominante, jamais foi consenso na história da modernidade. O Iluminismo, na verdade, viveu intensamente a contradição dessas duas racionalidades. A ideia do “déspota esclarecido”, inspirada na república platônica, foi por muito tempo a expressão política da confiança desmedida nas capacidades da razão em forjar a felicidade humana — uma confiança, aliás, que marcou também o espiritismo desde a sua origem. O século 20, porém, com o seu rastro de atrocidades racionalmente coordenadas, que vão desde o Estado nazista até as atuais guerras tecnológicas e seus mísseis teleguiados com precisão “cirúrgica”, foi marcado pela crescente desconfiança nas possibilidades da razão. Assim, entre a denúncia pós-moderna do fim da razão e as esperanças neo-iluministas de uma razão não despótica, comunicativa e enraizada na ética, dentro de uma situação histórica de derrocada do chamado socialismo real e, por conseguinte, dos horizontes revolucionários, a democracia emerge no mundo contemporâneo praticamente como um valor em si, como a única forma de manter as conquistas da inteligência humana em condições de defesa contra a tirania dessa própria inteligência. Em síntese, a busca da atualidade é a da razão plural, da razão múltipla: não há racionalidade na ditadura, pois, ante o pensamento único, a primeira coisa que se perde é justamente a racionalidade.

Este é um macrocontexto dentro do qual o espiritismo se insere contraditoriamente. Marcado desde a origem pelo pensamento positivista, o espiritismo jamais conseguiu superar essa herança epistemológica. Allan Kardec trabalhava com os conceitos de verdade e razão únicas, de uma evolução linear do pensamento científico e de um modelo comprovacionista da atividade científica. Entretanto, Kardec praticava a ciência que ensinava e, certamente por isso, diversas vezes relativizou a conceituação positivista chegando, algumas vezes, à quase antecipação da discussão filosófica e científica. Este, por exemplo, é o caso, que analisamos em outro artigo (Signates, 1998), da antecipação de uma teoria consensualista de verdade, na formulação genial da tese do “controle universal do ensino dos espíritos” (Kardec, 1864, p. 28 e seg.). Além disso, mesmo que admitamos, como é forçoso fazer, um profundo enraizamento das ideias de Allan Kardec no positivismo e no racionalismo francês, seria injusto declarar que o codificador do espiritismo aprovaria a eleição de sua obra a dogma do espiritismo e a busca continuada por garantias institucionais e políticas de manutenção de uma identidade ideológica centrada no pensamento único.

Consideradas, ainda, as exigências de saber e democracia das sociedades atuais, parece óbvio considerar que políticas de unificação, com base nos critérios da pureza ou da vigilância doutrinária, dificilmente conduzirão a comunidade espírita a um formato cognitivamente plural e pragmaticamente democrático de espiritismo. Tanto a democracia quanto o saber, demandam um ambiente de liberdade de pensamento e ação, para se consolidarem em termos de seus próprios objetivos. A questão, portanto, neste ponto é verificar até que ponto o espiritismo brasileiro tem condições concretas de reverter um quadro de pensamento único, institucionalmente garantido, no âmbito das relações internas, pelos processos de disciplinarização, de exclusão e, no quadro das relações com os demais grupos sociais, pela insistente defesa da demarcação contínua das fronteiras identitárias. Com a análise desta problemática, concluiremos estas reflexões.

Nenhum comentário:

Postar um comentário