terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Reforma Íntima sem Martírio o nosso novo estudo na Oficina dos Sentimentos


Projeto Oficina de Sentimentos: "Reforma íntima sem Martírio"


O projeto feito pela Universidade do Espírito.

No gelp estamos desenvolvendo apenas uma parte, a oficina dos sentimentos.
Mas, vale a pena conhecer todo o projeto.


A INSTITUIÇÃO ESPÍRITA COMO CENTRO DE EDUCAÇÃO E CULTURA: A ESCOLA DO ESPÍRITO
http://www.universidadedoespirito.org/index.php/instituicao-espirita
Celso da Costa Frauches.
Amai-vos e instrui-vos (Espírito Verdade).

I – INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho é o de realçar os aspectos educacionais e culturais do Espiritismo, procurando identificar atividades que possam ser desenvolvidas nas instituições espíritas dinamizando as suas finalidades filosóficas, científicas e religiosas.

II – BASE DOUTRINÁRIA

Kardec (3:p. 349) afirma que "o caráter da Doutrina Espírita é essencialmente progressivo". Diz, mais, que a Doutrina, "assimilando todas as idéias reconhecidamente justas, de qualquer ordem, quer sejam físicas ou metafísicas, jamais será ultrapassada, constituindo isso uma das principais garantias de sua perpetuidade".

Ainda Kardec (3 : p. 384) esclarece que "é pela educação, mais do que pela instrução, que se transformará a Humanidade".
Emmanuel (9:p. 75) enfatiza que "todas as reformas sociais necessárias em vossos tempos de indecisão espiritual, têm de processar-se sobre a base do Evangelho, pela educação. O plano pedagógico que implica esse grandioso problema tem de partir ainda do simples para o complexo. Ele abrange atividades multiformes e imensas, mas não é impossível. Primeiramente, o trabalho de vulgarização deverá intensificar-se, lançando, através da palavra falada ou escrita do ensinamento, as diminutas raízes do futuro".


André Luiz (7:p. 140) lembra que o Espiritismo, "em todas as circunstâncias, expressa, antes de tudo, obra de educação, integrando a alma humana nos padrões do Divino Mestre". E sintetiza, magistralmente: "A educação da alma é a alma da educação".

Joana de Angelis (1:p. 173) ressalta que, "doutrina eminentemente racional, o Espiritismo dispõe de vigorosos recursos para a edificação do templo da Educação, portanto, penetra nas raízes da vida, jornadeando com o espírito através dos tempos, de modo a elucidar recalques, neuroses, distonias que repontam desde os primeiros dias da conjuntura carnal, a se fixarem no corpo somático para complexas provas ou expiações".

O pensador espírita J. Herculano Pires (5:p. 20) esclarece que "a Educação Espírita é o processo de orientação das novas gerações, de acordo com a visão nova que o Espiritismo nos oferece da realidade".

A educadora Dora Incontri, no seu primeiro livro (12:p. 13), enfatiza que “para que haja Educação no verdadeiro sentido do termo, impõe-se-nos antes de mais nada duas premissas básicas: amor e auto-educação. Amar para educar e auto-educar-se para amar. Ninguém pode aperfeiçoar, se não procura cultivar em si mesmo a obra da evolução”.

Hammed (11:p. 7) nos alerta que “a autêntica religiosidade não quer restringir nossa liberdade, mas, sim, apresentá-la a nós. Ela nos inspira a naturalidade da vida, o espírito crítico, a perquirição filosófica, a racionalidade, levando-nos a entender a perfeita harmonia do Universo”.

Bezerra de Menezes (14:p. 16) conclama: “a hora é de ação e campanha para chamar na Estrada de Damasco os que queiram suportar o sacrifício, a renúncia e a obstinação em nome de uma nobre causa que é libertar a mensagem de Jesus dos círculos impregnados de bazófia e fascinação, através de exemplos de vida e do serviço construtivo de uma mentalidade em plena identificação com a mensagem moral do Espiritismo Cristão”.

Eurípedes Barsanulfo (14:p. 42), nos diz que é imprescindível “promover o centro espírita da condição de Escola de Espiritismo para Escola do Espírito ... Como Escola inspirada nas bases doutrinárias oferece ao homem sofrido o conteúdo e a rota apropriada para libertar-se da dor e assumir a direção de sua caminhada. Porém, somente como Escola do Espírito tornar-se-á um centro vivo de treinamento da convivência regenerativa e libertadora, através de relações sólidas e educativas, fazendo da casa doutrinária a célula da união espontânea e contagiante, que deverá envolver outras agremiações nesse clima, edificando a unificação pela fraternidade pura e motivadora”.
III – OS CENTROS ESPÍRITAS: ONTEM E HOJE


Ao longo dos anos, a grande maioria das instituições espíritas brasileiras relegou a plano secundário o aspecto educacional e cultural do Espiritismo. Recentemente, o caráter educacional da Doutrina Espírita tem sido observado no que se denomina "Evangelização Espírita da Criança e do Jovem", "Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita" etc., normalmente em reuniões semanais em diversos centros espíritas do País.

As instituições espíritas, no Brasil, geralmente, reservam parte substancial de suas atividades para os serviços mediúnicos e de assistência social. O serviço educacional espírita é inexpressivo. Escola espírita, muito menos.

Reconhecemos que a ideia de impregnar a instrução com a filosofia, a ciência e a ética e moral espíritas, transformando-a em Educação Espírita, é revolucionária, até, para muitos espíritas.

Mas, por que não transformar o próprio centro espírita numa instituição educacional e cultural, sem dogmatismos?

Se observarmos a quase totalidade das casas espíritas brasileiras, vamos notar que as suas instalações físicas ficam ociosas em mais de 80% de sua capacidade. São algumas reuniões mediúnicas semanais, quase sempre à noite, mais evangelização infantil e reunião da mocidade espírita. Durante o dia e algumas noites as instalações físicas, quase sempre, ficam ociosas.

Por que esse desperdício?

Cada instituição espírita, como é óbvio, está inserida numa comunidade. A partir das suas características próprias e da comunidade, poderá programar as suas atividades não mediúnicas, visando alcançar o maior número de pessoas, adeptos ou simpatizantes da causa espírita, simples curiosos ou estudiosos e pesquisadores.

Por outro lado, com poucas exceções, os membros permanentes de uma casa espírita se encontram poucos minutos antes de cada atividade doutrinária, mediúnica ou assistencial e se desligam logo depois de terminado esse trabalho. Não há – ou é insignificante – a convivência evangélica, amorosa entre os participantes ou frequentadores dos centros espíritas, antes ou depois das atividades e no próprio ambiente. Muito menos fora desse ambiente.

Bezerra de Menezes (14:p. 17) alerta-nos que “a meta principal é aprendermos a amarmo-nos uns aos outros, para que tudo o que for criado em nome da causa espírita reflita a essência do Espiritismo em nossas movimentações. Nossa meta essencial é o amor, a atitude que reflete Deus em nós”.

Dora Incontri, criadora e dirigente da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita, disponibiliza, no portal da entidade – www.pedagogiaespirita.com.br –, um projeto para o centro espírita do século 21, da Nova Era:

Se o Espiritismo é uma proposta de educação, o centro espírita deverá ter uma função principalmente pedagógica. Tudo o que se faz aí deverá ser orientado para a meta de educar os espíritos, dentro dos princípios da pedagogia espírita. Isto muda o cenário do centro, que se tornou no Brasil muito mais um templo religioso de caráter assistencialista do que uma escola de ação, liberdade e afetividade. A pedagogia alcança todos os setores:

1) a assistência social deve se tornar sobretudo educação e promoção social;
2) a comunicação com os espíritos é processo de educação mútua: os espíritos superiores ajudam em nossa educação, ajudamos na educação dos que ainda resistem no mal;
3) a evangelização se torna educação espírita, perdendo o caráter de catequese com métodos tradicionais, apostilas e relações paternalistas com crianças e adolescentes, para se tornar um projeto pedagógico participativo e dinâmico;
4) a mediunidade se aprende praticando, num processo de auto-educação autônoma, estudando-se as obras de Kardec e aplicando os princípios éticos espíritas numa prática racional e útil das faculdades mediúnicas;
5) o estudo da doutrina espírita se transforma, abandonando-se os métodos passivos, apostilados, para se iluminar pela proposta pedagógica espírita, que implica em estudo direto de Kardec e das obras complementares, em grupos de estudos participativos, com debates e pesquisas;
6) as relações humanas devem se elevar a um patamar de fraternidade e igualdade, transformando-se as relações de poder e impessoalidade em educação mútua, igualitária, amistosa, onde todos se conheçam, se estimem, se respeitem, sem preocupação de disputa de cargos e de hierarquias artificiais. Isso implica em abolir as categorias: “assistidos” e “trabalhadores”, que reproduzem no centro espírita a divisão de classes da sociedade brasileira e em fazer ponte entre diferentes faixas etárias: jovens, adolescentes, crianças devem participar de todas as atividades do centro, inclusive as mediúnicas, segundo o interesse, a maturidade e a capacidade de cada um. A idéia da reencarnação deve justamente quebrar a rigidez de conceitos e preconceitos que dividem os seres humanos. Um favelado pode ser mais evoluído que uma pessoa titulada; uma criança pode já apresentar a precocidade de um espírito antigo e um adolescente pode apresentar-se médium muito cedo, como todas as médiuns que trabalharam com Kardec, as meninas Baudin, Ermance Dufaux, Senhorita Japhet, que tinham entre 14 e 18 anos, quando deram grandes contribuições ao espiritismo.

IV – A ESCOLA DO ESPÍRITO

Tendo em mente a orientação de Kardec (3:p. 346) de que "não se deve pedir às coisas senão o que elas podem dar, à medida que se vão pondo em estado de produzir", os líderes espíritas devem promover, incentivar ou apoiar eventos que objetivem transformar a instituição espírita num verdadeiro centro de educação e cultura, transformador do ser, na busca do Homem Novo. Uma Escola do Espírito.

As instituições espíritas, ao lado do trabalho mediúnico e assistencial, podem realizar diversas atividades educacionais, científicas e culturais, de acordo com as potencialidades e características de cada grupo ou dos seus integrantes. Devem desenvolver, ainda, o relacionamento fraterno entre os seus membros, entre os membros das diversas casas espíritas e com os que buscam na casa espírita o alívio para suas dores; especialmente as dores da alma.

Ermance Dufaux (17:p. 46) diz que “o desafio de tornar o centro espírita o núcleo educativo de emoções superiores aguarda, de seus dirigentes e tarefeiros, expressiva soma de esforços. Escola da alma, a casa doutrinária deve ter harmonia com a proposta do Espiritismo, a qual lhe inspira os roteiros de trabalho e sustenta diretrizes para a intimidade dos servidores. Superar limites institucionais, cultivar relações saudáveis e motivadoras, vencer barreiras emocionais são alguns dos exercício de aproximação afetiva a que se devem consagrar todos os lidadores matriculados nesse educandário do amor. Lado a lado com a aquisição do conhecimento, o desenvolvimento de expressões de afeto constitui o terreno fértil ao burilamento de arestas e consolidação de valores morais, no carreiro da evolução”.

É esse desafio que todos os espíritas devem tomar como seu. Reunir as pessoas, debater as propostas, a partir do diagnóstico do ambiente de cada casa, identificar valores que possam contribuir para a transformação do centro espírita numa Escola do Espírito.

O primeiro desafio, sem dúvida, será eliminar o nosso maior inimigo. É o espírito Bezerra de Menezes (14:p. 15) quem nos alerta: “nosso maior inimigo, de fato, é o orgulho em suas expressões inferiores de arrogância, inflexibilidade, perfeccionismo, autoritarismo, intolerância, preconceito e vaidade, seus frutos infelizes que, sem dúvida, insuflam a institucionalização perniciosa e incentivam o dogmatismo e a fé cega, adubando a hierarquização e o sectarismo”.

Tomada a decisão de transformar o centro espírita numa Escola do Espírito, deve-se partir para a identificação de valores para as tarefas voluntárias, que pode fluir de encontros, previamente, programados, com objetivos específicos, num chamamento aos trabalhadores da casa e aos seus frequentadores para essa nova fase.

Para essa primeira etapa, é bom lembrar uma sábia orientação de Bezerra de Menezes (14:p. 22):

O núcleo espiritista deve sair do patamar de templo de crenças e assumir sua feição de escola capacitadora de virtudes e formação do homem de bem, independentemente de fazer ou não com que seus transeuntes se tornem espíritas e assumam designação religiosa formal.

Elaboremos um programa educacional centrado em valores humanos para dirigentes, trabalhadores, médiuns, pais, mães, jovens, velhos, e o apliquemos consentaneamente com as bases da Doutrina.

Saber viver e conviver serão as metas primaciais desse programa no desenvolvimento de habilidades e competências do espírito.

O que faremos para aprender a arte de amar? Como aprender a aprender? Como desenvolver afeto em grupo? Como “devolver visão a cegos, curar coxos e estropiados, limpar leprosos, expulsar demônios”?

Muitos adeptos conhecem a profundidade dos mecanismos desencarnatórios à luz dos princípios espíritas, entretanto, temos constatado quantos chegam por aqui em deploráveis condições por não se imunizarem contra os padrões morais infelizes e degeneradores.

A melhoria das possibilidades do centro espírita indiscutivelmente facilitará novos tempos para o pensamento espírita, haja vista que estaremos ali preparando o novo contingente de servidores da causa dentro de uma visão harmonizada com as implicações da hora presente. Dessa forma, estaremos retirando a Casa da feição de uma “ilha paradisíaca de espiritualidade”, projetando-a ao meio social e adestrando seus partícipes a superarem sua condição sem estabelecer uma realidade fictícia e onerosa, insufladora de conflitos e de medidas impositivas, longe das reais possibilidades de transformação que a criatura pode e precisa efetivar em si mesma.

1. As ações da Escola Espírita

1.1. Oficina dos sentimentos

O cultivo do afeto e do interesse uns pelos outros, a alegria espontânea, os abraços de saudade, a conversa amena e familiar, o telefonema esporádico, uma carta de lembrança, são todos expedientes de gentileza e humanidade despidos dos desejos sutis de realce e controle, e que fazem todas as relações mais humanas, mais afetuosas, mais solidárias.

Ermance Dufaux (16:p. 107)

O Espírito Ermance Dufaux[4], na introdução do livro Escutando Sentimentos, informa que (15 : p. 25) “temos no Hospital Esperança[5] os grupos de reencontro, que são atividades de psicologia da alma com fins terapêuticos e educacionais – verdadeiras oficinas do sentimento. No plano físico, atividades similares poderão constituir uma autêntica pedagogia de contextualização para a mensagem de amor contida no Evangelho e na codificação kardequiana”.

Com base nessa e em outras mensagens de Ermance Dufaux, Bezerra de Menezes, Eurípedes Barsanulfo e outros mentores espirituais, o médium Wanderley Soares de Oliveira, da Sociedade Espírita Ermance Dufaux[6], idealizou e faz funcionar a Oficina dos Sentimentos[7].

Essa iniciativa, sem dúvida, pode contribuir para a formação de equipes, em cada centro espírita, para a transformação dessas casas numa verdadeira Escola do Espírito.

É o próprio Wanderley Soares de Oliveira quem descreve a experiência da Oficina dos Sentimentos, realizada pela Sociedade Espírita Ermance Dufaux e transcrita em seguida.

Oficina dos Sentimentos

1) Apresentação

O presente trabalho enfoca uma proposta de debate em torno dos sentimentos com base na Psicologia e na Doutrina Espírita.

A Doutrina Espírita, já no lançamento de O Livro dos Espíritos, em 1857, por meio da pergunta 919 - Qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal? Um sábio da antiguidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo. O conhecimento de si mesmo é, portanto, a chave do progresso individual.” -, expressa claramente a necessidade do autoconhecimento do indivíduo para que este efetue com eficiência seu progresso, comumente entendido por reforma íntima.

O traço fundamental do Período de Maioridade das Ideias Espíritas, segundo o Doutor Bezerra de Menezes na mensagem Atitude de Amor, é a humanização de nossas relações. Mas como alcançar essa conquista sem estudar nossos sentimentos?

O conhecimento espírita – luz em nossos caminhos – nem sempre tem gerado paz e equilíbrio em nosso íntimo. A causa principal da incoerência entre saber e fazer pode ser encontrada, sobretudo, na nossa ignorância acerca do que se passa no reino do coração.

Temos recebido informações diversas sobre companheiros que desencarnam com larga folha de serviços prestados à doutrina e com invejável cultura doutrinária, no entanto, carentes de sossego interior e atormentados por dramas conscienciais.

A espiritualidade amiga tem incrementado a literatura espírita com obras que incitam o autoconhecimento, o repensar sobre si mesmo, posturas que levam o homem, inevitavelmente, à mudança da atitude em existir e do próprio comportamento.

Na década de 80 foi lançado o livro Jesus e Atualidade, da autoria espiritual de Joanna de Ângelis, pelo médium Divaldo Pereira Franco, obra que despertou efetivamente o interesse pelo tema do autoconhecimento com a utilização de conceitos do Espiritismo e da Psicologia, quebrando a resistência de muitos a esta ciência.

(...) Ir mais além à estrutura do homem espiritual, despertando-o para sua realidade interior e eterna. Trata-se de um convite, uma oferta. E cada um meditando no que deseja e no que pode oferecer, predispor-se-á ou não a engajar-se na marcha nova do nosso labor em favor de nós próprios e, como resultado, da humanidade em que nos encontramos como membros essenciais (...) A Veneranda Joanna de Ângelis, p. 82

Confirmando o caráter de universalidade das informações, ressaltado por Kardec em O Evangelho Segundo o Espiritismo, outros enfoques que demonstram a intenção dos amigos espirituais em trabalhar esse assunto têm sido trazidos por diversos autores espirituais, tais como Hammed, Inácio Ferreira e, mais recentemente, Ermance Dufaux.

Eis alguns dos temas desses autores: culpa, lucidez, personalismo, alteridade, processos de obsessão e suas repercussões na vida interior, ansiedade, depressão, autoestima, felicidade, orgulho e convivência.

Cada um com linguajar e enfoques específicos, mas tendo em comum o alerta, a orientação para o processo de transformação pessoal. Viver em paz consigo mesmo, sem tantas mágoas, rancores, ódios, melindres, ressentimentos, hipocrisias... Sem tanto orgulho e egoísmo. Com amor por si mesmo, com autonomia, com alteridade. Renovando atitudes com coragem, determinação e perseverança. Buscando assim vivenciar os preceitos evangélicos inseridos na proposta educativa de Jesus. Com qualidade. Tornar-se verdadeiramente um homem de bem que não matou o homem velho, porém o transformou em uma pessoa melhor.

A oficina dos sentimentos é um instrumento pedagógico voltado para a compreensão de nós mesmos. O trabalho realizado pela Internet, conquanto não nos enseje as expressões mais desejáveis de afeto, tem se constituído em bálsamo, um norte às nossas almas aflitas por se entenderem melhor.



Algumas estatísticas nos serviços de atendimentos fraternos e triagem dos centros espíritas apontam de forma expressiva as queixas em torno de sentimentos mal resolvidos e cristalizados nas pessoas atendidas. E também, de forma empírica, por meio de conversas informais, identificamos o alto interesse que a temática desperta em espíritas e em praticantes das mais diversas religiões.

A Oficina dos Sentimentos nos ensejou a comprovação dessa realidade, como segue a nossa amostragem vivencial:

1) Faltam-nos conceitos claros sobre os sentimentos.
2) Temos enorme dificuldade de falar sobre nossos sentimentos, protegendo-nos com jargões e repetição de textos.
3) Não sabemos identificar nossos sentimentos.
4) Não diferenciamos atitude, sentimento, impulso, tendência, estado emocional, sensação.
5) Vivemos intensamente a negação como mecanismo de defesa acerca do que sentimos.

2) Objetivos

Objetivo Geral

Estruturar a formação de um grupo de debate sobre sentimentos com base nos conceitos da Psicologia e da Doutrina Espírita.

Objetivos específicos

a) Conhecer conceitos de sentimentos.
b) Repensar seus próprios conceitos e sentimentos.
c) Diferenciar sentimentos de sensações, estados emocionais e atitudes.
d) Auxiliar na continuidade do processo de autoconhecimento.
e) Trocar experiências, conhecimentos e afetividade com o grupo.
f) Desenvolver a capacidade de contextualização dos sentimentos.
3) Público-alvo

O público-alvo preferencial deste projeto são trabalhadores espíritas.
4) Conteúdo Programático

O conteúdo a ser trabalhado pelo grupo pode ser fruto de acordos, conforme o interesse de aprendizado e necessidade. A seguir algumas sugestões adotadas em nossa oficina dos sentimentos 1:

· Mágoa

· Medo

· Inveja

· Culpa

· Orgulho

Além do debate em torno dos sentimentos, temos pesquisado alguns fundamentos da Psicologia que corroboram com melhor entendimento dos temas, tais como sombra, autonomia, intenção, empatia e máscaras.

5) Coordenação

No Espiritismo não é utilizado o modelo professor-aluno, sendo priorizada e incentivada a ideia de que o instrutor é um facilitador do aprendizado. No grupo de debate sobre sentimentos, haverá a figura do moderador, que será responsável pela condução do tema para evitar a dispersão e incentivar o repensar de conceitos.

O moderador deverá ter papel motivador, um instigador de ideias para o grupo repensar posturas e prezar pela lucidez dos pensamentos que defende. Um dos seus principais aliados nessa tarefa são as interrogações sobre os temas. Perguntas inteligentes provocam reflexão, curiosidade. O desafio maior do moderador será incentivar no grupo a prática colaborativa e a contextualização dos temas. Como falar de sentimentos sem falar de si? Isso é contextualizar ou colocar-se no tema em debate. O moderador dará uma decisiva contribuição para o andamento e êxito da tarefa.

A pedagogia da contextualização, ou seja, colocar a vivência como referência didática é o ponto alto da condução do grupo. Aprender a utilizar o pronome “eu” ao invés do “nós”. Falar de si. Em algumas situações usamos o nós para incluir os outros e não assumir a si mesmo, seus sentimentos.

Por outro lado, cabe ao moderador não deixar o grupo confundir Oficina dos Sentimentos com consultório terapêutico, que é um outro trabalho bem distinto.

Todos podem cooperar. Toda participação é bem-vinda. Sentimento é algo individual, portanto, toda experiência tem valor educacional. Todos têm algo com que colaborar.

Observamos uma tendência inicial no grupo de repetir frases e chavões do Espiritismo e do Evangelho. Trechos de obras mediúnicas eram colocados como respostas para as questões levantadas. A isso denominamos “prosopopéia”, ou seja, uma acomodação em conceitos não refletidos a partir do senso pessoal, um costume de ter respostas prontas para temas extremamente ricos de diversidade e possibilidade de entendimento. A prosopopéia, em outras palavras, é a dogmatização dos temas doutrinários.

Outra tendência é esperar tudo pronto por parte do moderador. Para isso algumas dinâmicas foram incluídas no intuito de aproveitar o potencial do grupo. A criatividade nesse sentido é muito vasta para quem anseia ver o grupo crescer.

Uma condução afetiva e incentivadora resultará em confiança e amizade no grupo. Esses valores são essenciais para alcançar os objetivos da Oficina dos Sentimentos, pois como se retratar nos temas sem essa conquista?

6) Metodologia

Encontros semanais com duração de 90 minutos. A proposta é debater e não estudar nos moldes educacionais de se passar informações. Com a técnica do debate todos se incluem e os temas não são concluídos. Não há respostas definitivas. Pelo contrário, a idéia é devassar o tema e permitir as inferências pessoais, íntimas.

Devido a essa característica, denominamos a tarefa como oficina, inspirados em colocações de Ermance Dufaux, como esta a seguir:

“O que faz uma oficina? Reparos, consertos, trocas de peças, regulagens, revisões.tc "O que faz uma oficina? Reparos, consertos, trocas de peças, regulagens, revisões."

Nos dicionários humanos a palavra oficina significa: Lugar onde se verificam grandes transformações. Esse é o sentido que melhor se ajusta a nossos conceitos. t.c. "Nos dicionários humanos a palavra oficina significa\: “Lugar onde se verificam grandes transformações”. Esse é o sentido que melhor se ajusta a nossos conceitos. "

Oficinas permanentes de ideias e intercâmbio tornam-se imprescindíveis nesta hora que passa, arregimentando ‘laboratórios de troca e reinvenção do agir’, fortalecendo as bases, estimulando os caminheiros, propondo metas, vencendo o marasmo em parcela considerável das casas.” – Laços de Afeto – capítulo 22, segunda parte.tc "Oficinas permanentes de idéias e intercâmbio tornam-se imprescindíveis nessa hora que passa, arregimentando “laboratórios de troca e reinvenção do agir”, fortalecendo as bases, estimulando os caminheiros, propondo metas, vencendo o marasmo em parcela considerável das Casas."

7) Oficina dos Sentimentos Virtual

Educação a Distância, segundo o MEC, é uma modalidade educacional na qual a mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares e tempos diversos (Decreto nº 5622 de 19.12.2005).

A Educação a Distância propicia atingir um número significativo de pessoas domiciliadas em qualquer lugar do país ou do mundo, além de propiciar aos participantes a liberdade de fazer o seu horário pessoal. Os encontros virtuais propiciam a comodidade de estudo sem a necessidade de deslocamento físico semanal.

Eis algumas vantagens da Oficina dos Sentimentos virtual:

a) evitar deslocamento para realização da atividade.

b) horário compatível com término das reuniões nos centros espíritas, possibilitando participação em casa.

c) inexistência de um grupo presencial similar no centro que freqüenta ou na mesma cidade.

Em uma análise preliminar, foi possível identificar os seguintes pontos positivos que servem como estímulo para a realização desta proposta:

· crescente interesse pela Doutrina Espírita;

· crescente interesse pela Psicologia;

· crescente número de internautas;

· redução dos preconceitos relativos à educação à distância;

· redução da carga horária presencial de debate: encontros semestrais e/ou anuais;

· público-alvo com autonomia para gerenciamento do horário;

· possibilidade de participação de pessoas que estejam em qualquer localidade do país ou do mundo.

A Internet será o principal meio de comunicação entre os participantes por fornecer aos seus usuários vários recursos em tempo real, promovendo a agilidade do processo, além da disponibilidade de acesso a publicações eletrônicas e sites de pesquisa.

Será criado um site onde serão disponibilizadas as informações do grupo e dos debates (apresentações, registros, resumos, informações dos participantes, etc).

Para os encontros semanais será utilizado o software gratuito Paltalk (www.paltalk.com), que atende às necessidades do grupo de debates por possibilitar a abertura de uma sala de bate-papo (chat) específica com até 200 componentes, contando inclusive com recursos de videoconferência (voz e imagem) se necessários. O software possui o recurso de abertura de várias salas independentes, vinculadas à sala de chat principal, que é extremamente útil na divisão dos participantes em grupos menores para debates de assuntos distintos.

Como contingência, será utilizado o software MSN, também gratuito, que, embora com menos recursos, possibilita efetuar o debate com qualidade.

Os encontros poderão ser gravados por meio do software gratuito Audacity para, após edição, serem disponibilizados no site do grupo.

Com o objetivo de dar continuidade à discussão dos assuntos abordados nos encontros virtuais semanais, será criada uma lista de discussão no site Google Groups (http://groups.google.com.br), que fornece esse serviço gratuitamente. Assim o grupo poderá continuar, através da troca de e-mails destinados exclusivamente aos inscritos, a debater o tema com mais profundidade.

Dificuldades no uso das ferramentas escolhidas poderão ser resolvidas, em primeiro nível, pelos próprios participantes – ajuda mútua.

8) Tempo de duração

Nossa primeira Oficina dos Sentimentos serviu para percebermos que seis meses é um tempo hábil para se atingir bons resultados com um mesmo grupo.

Após isso, pode-se continuar a atividade através de prestação de serviços, conforme a disponibilidade de cada membro componente.

1.2. Ensino e pesquisa espíritas

"Um curso regular de Espiritismo, que seria dado com fim de desenvolver os princípios da Ciência Espírita e propagar o gosto pelos estudos sérios" já era recomendado por Kardec (3:p. 342) com o objetivo de "criar a unidade de princípios, de obter adeptos esclarecidos, capazes de difundir as ideias espíritas e de desenvolver grande número de médiuns". E Kardec concluía: "encaro este curso como capaz de exercer influência capital no futuro do Espiritismo e em suas consequências".

Hoje, inúmeros centros espíritas oferecem cursos de espiritismo, sob o rótulo de estudo sistematizado da doutrina, estudos básicos, estudos sobre mediunidade etc. O curso regular de Espiritismo, contudo, inexiste na grande maioria das instituições espíritas.

Herculano Pires (5: p. 164) elaborou um currículo para o curso regular de Espiritismo. A reação, à época, no próprio meio espírita, foi contrária ao curso, enfrentando o mestre Herculano cerrada oposição de prestigiosos militantes espíritas. Havia, como ainda há, muita ignorância entre diversos espíritas, sobre os objetivos da Doutrina Espírita.

Um curso regular de Espiritismo é indispensável, como recomenda Kardec, em qualquer centro espírita ou, no mínimo, nos organismos regionais. Os professores espíritas devem procurar influenciar os dirigentes espíritas, nos centros onde militem, para a realização desses cursos, adotando-se metodologias eficientes e dinâmicas. A pesquisa espírita deve ser parte essencial do curso, que não pode se limitar às obras básicas, de Kardec, mas incluir outras, importantes para o desenvolvimento e o aprofundamento dos estudos espíritas sérios.

1.3. Escola de pais e professores

A escola de pais e professores encontra amparo na obra Kardequiana e na psicologia moderna. O objetivo seria preparar pais e professores para a tarefa complexa da educação, em particular, no lar, na escola, na casa espírita. A Psicologia, a Sociologia, a Filosofia e a Biologia, à luz do Espiritismo, são instrumentos indispensáveis a um bom processo educacional, onde pais e mestres são peças fundamentais.

Kardec (4:p. 37) ao abordar a necessidade de se atacar o egoísmo e o orgulho, chega a vislumbrar cursos para as mães, para a aquisição de conhecimentos espíritas, a serem aplicados na educação dos filhos, como se impõe ao advogado conhecer a ciência do Direito.

As instituições espíritas deveriam promover encontros entre pais, professores e outros profissionais da educação, a fim de se estudarem o currículo desses cursos, estabelecendo objetivos e desenvolvendo esforços para sua ministração permanente.

Cursos de orientação familiar poderiam ser estruturados, especialmente nas áreas de Psicologia, Biologia, Nutrição e Ecologia. Outras atividades poderiam ser incrementadas, no âmbito da Pedagogia Espírita, para o aprimoramento do desempenho profissional do professor e dos especialistas em Educação, com vistas ao trabalho na escola espírita e não-espírita.

1.4. Cursos profissionalizantes de aperfeiçoamento e treinamento

Os cursos livres de aperfeiçoamento, atualização profissional e cultural, treinamento e/ ou especialização podem ser programados e executados, segundo as realidades locais, de cada centro e da comunidade a que está ligado ou que pode servir.

Para essas funções, profissionais espíritas, voluntários devem ser atraídos.

Os cursos podem ser variados, de acordo com a necessidade da clientela e os valores humanos da instituição, partindo do artesanato, passando pelo microcomputador, pelo ensino de línguas etc, podendo chegar a cursos mais complexos, como os de profissionalização, supletivos, em nível médio.

1.5. Oficinas de artes

Kardec (3:p.157-159), falando sobre Artes, assevera que "é matematicamente certo dizer-se que, sem crença, as artes carecem de utilidade e que toda transformação filosófica acarreta necessariamente uma transformação artística paralela". Diz, mais, que "assim como a arte cristã sucedeu à arte pagã, transformando-a, a arte espírita será o complemento e a transformação da arte cristã". E conclui que, "sem dúvida, o Espiritismo abre à arte um campo inteiramente novo, imenso e ainda inexplorado".

As artes, praticamente inexistentes nos centros espíritas, carecem de incentivo e apoio em todas as suas formas e manifestações. Os centros podem ser transformados, em um ou mais dias da semana, em verdadeiras oficinas de artes, abertas à comunidade, sob a liderança de artistas espíritas, de preferência.

A oficina poderia oferecer cursos de teatro, música, literaturas, artes plásticas, desenho, cerâmica e outras modalidades ou manifestações artísticas.

A música, também marginalizada na maioria das instituições espíritas, precisa estar ali presente, com a participação ativa de artistas (profissionais e/ou amadores), de preferência com formação espírita e com sensibilidade para o desenvolvimento de trabalho voltado para as necessidades interiores do ser. A música não pode deixar de ser incorporada à rotina dos centros espíritas, sob todas as formas, no canto coral, nos conjuntos vocais e instrumentais.

Entre as ações nessa área, podem ser implementados cursos de alfabetização de jovens e adultos, com o uso de instalações ociosas e a participação de professores e instrutores espíritas.

1.6. Cursos, seminários, simpósios e outros eventos sobre o pensamento espírita e os problemas contemporâneos

Kardec (3:p. 340) afirma que "dois elementos hão de concorrer para o progresso do Espiritismo: o estabelecimento teórico da Doutrina e os meios de a popularizar".

Um dos meios mais eficientes e eficazes para a popularização da Doutrina, no sentido de fazer chegar os seus princípios às pessoas comuns, é a realização sistemática de eventos, didaticamente preparados, que possibilitem a análise da aplicação da filosofia, da ciência e da ética espíritas aos problemas contemporâneos, na busca de soluções ou de explicações plausíveis para o seu entendimento.

O pensamento espírita deve permear a análise dos problemas atuais, oferecendo, ao cidadão comum, uma visão transparente do mundo atual e das perspectivas para próximas décadas, que seja transparente, lúcida e aliada ao bom senso.

A violência, as drogas, os problemas relativos ao sexo, à política, aos conflitos entre povos e nações, à corrupção e às relações interpessoais são temas ainda pouco estudados no meio espírita e para os quais o Espiritismo tem contribuições importantes, com a sua visão holística do ser e do universo.

Pode-se, ainda, promover a capacitação de professores na Pedagogia Espírita, como forma de contribuir para a melhoria da educação escolar e formar quadros para a Escola Espírita.

A Associação Brasileira de Pedagogia Espírita[8] ministra um curso de pós-graduação lato sensu, em nível de especialização, de acordo com a Resolução nº 1/2007, da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação. O curso, com ênfase em ensino inter-religioso e filosofia para criança, tem por objetivo debater a Pedagogia Espírita, no contexto da cultura contemporânea, e capacitar pesquisadores para desenvolver projetos nesta área e capacitar educadores para aplicação de uma nova prática pedagógica. São objeto de estudos as disciplinas Filosofia Geral, Filosofia Espírita, Filosofia da Educação, História da Educação Brasileira, História da Educação Espírita, História da Educação, História do Cristianismo, Religião e Pós-modernidade, Teoria da Ciência, Metodologia Científica, Ciência e Espiritismo, Psicologia Espírita da Educação, Escola Espírita, Projetos Interdisciplinares, Estética e Educação, Arquitetura e Educação, Arte, Tecnologia e Educação, Ensino Inter-religioso e Filosofia para Criança.

1.7. Escola Espírita

Kardec, n' O Livro dos Espíritos (2:p. 331), afirma que "há um elemento, que se não costuma fazer pesar na balança e sem o qual a ciência econômica não passa de simples teoria. Esse elemento é a educação, não a educação intelectual, mas a educação moral. Não nos referimos, porém, à educação moral pelos livros e, sim, à que consiste na arte de formar caracteres, à que incute hábitos. Portanto, a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos. Considerando-se a aluvião de indivíduos que todos os dias são lançados na torrente da população, sem princípios, sem freios e entregues a seus próprios instintos, serão de espantar as conseqüências desastrosas que daí decorrem? Quando essa arte for conhecida, compreendida e praticada, o homem terá no mundo hábitos de ordem e de previdência para consigo mesmo e para com os seus, de respeito a tudo o que é respeitável, hábitos que lhe permitirão atravessar menos penosamente os maus dias inevitáveis. A desordem e a imprevidência são duas chagas de partida, o elemento real do bem-estar, o penhor da segurança de todos".

Quando Kardec fala em educação, somente se pode entender à luz do Espiritismo, ou seja, Educação Espírita.

Este processo de formar caracteres à luz do Espiritismo pode ser conseguido apenas com aulas e reuniões de Evangelização Infantil, de Mocidade ou do chamado Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita?

E o tempo vivido na escola? E no lar? E no trabalho?

Segundo Herculano Pires (5:p. 53), "a nova concepção do homem e do mundo, que marca o nosso tempo, exige um nova educação, de dimensões cósmicas e espirituais. Porque a Era do Espírito é também a Era Cósmica. E só o Espiritismo tem condições para atender a essa exigência do nosso tempo, através da Educação Espírita".

Pedro de Camargo - Vinícius - (8:p. 168), afirmava que "a missão do Espiritismo é educar para salvar "e que "enquanto esse fato não penetrar a mente e o coração da maioria dos espíritas, a luz não estará no velador e o Paracleto ver-se-á embaraçado na tarefa de reivindicar os direitos do divino Redentor, restaurando o Cristianismo de Jesus, desse Jesus que foi mestre, teve discípulos e proclamou a liberdade do homem mediante a educação racional do Espírito". E arremata : "Educar - eis o rumo a seguir, o programa do momento".

Juvanir Borges de Souza (6 : p. 154-158) assinala que "existe uma espécie de consenso, nas sociedades modernas, profundamente influenciadas pelo materialismo, visando a isolar a instrução, falsamente denominada Educação, do ensino moral e espiritual, como se a aprendizagem das letras, das matemáticas, das artes e ofícios e das ciências em geral fosse mais importante e essencial do que a formação do caráter, a aquisição de bondade e do senso de justiça, o cultivo da verdade". Afirma, ainda, que "é pela educação fundamentada na Doutrina Espírita que se tornará possível a alteração desse comportamento, instruindo-se, melhorando, fortalecendo, consolando e tornando mais feliz o educando".

Dora Incontri (17:p. 4), ao partir da constatação de que ”a escola influi decisivamente na personalidade atual do ser reencarnado”, afirma a urgência da formação de escolas espíritas, “mas quando dizemos escolas espíritas, não estamos nos referindo a escolas iguais às outras, com a diferença de contar em seu currículo uma aula de Espiritismo por semana. Isso seria reduzir a Doutrina a um catecismo dogmático, idêntico ao dos protestantes e católicos. Quando falamos em Escola Espírita, estamos pensando em Escola Nova, com uma base filosófica, uma Pedagogia e um conteúdo de ensino diferentes”. E assevera: “uma escola que veja na criança um ser reencarnado, com todas as conseqüências ilógicas que decorrem deste princípio. Tais como: 1º) A criança tem individualidade própria, independente das influências hereditárias e sociais e deve ser respeitada como tal. Sua personalidade não pode ser moldada pela Educação, apenas cultivada no bom sentido. 2º) A finalidade da reencarnação na terra é a evolução integral do ser. E esta também deve ser a meta da Educação. Não se pode educar apenas com vistas à vida presente, mas com abertura para a eternidade, pensando-se na transcendência humana. 3º) Fazem parte desta evolução o desenvolvimento moral e o desenvolvimento intelectual. Assim, a Educação deve se dirigir ao cérebro e ao coração. E a escola pode usar dos seguintes instrumentos, nesta tarefa: a Ciência, que está ligada ao fazer do homem na terra; a Filosofia, que está relacionada com o pensar humano; a Religião, que resume o sentir (J. Herculano Pires – Revista da Educação Espírita). E Ciência, Filosofia e Religião não como um amontoado de fórmulas, sistemas e dogmas respectivamente. Mas com o espírito de investigação, capacidade de questionamento e sentimento de harmonia com o todo. A Escola Espírita será aquela capaz de desenvolver a pessoa humana em sua plenitude sócio-espiritual. Formar a criança horizontalmente para poder trabalhar e atuar no mundo em que vive, mas, também, formá-la verticalmente, atingindo a perfectibilidade possível do ser naquele determinado momento evolutivo. Todos os recursos devem ser lembrados e usados pela escola: as artes, os trabalhos manuais, o teatro, a agricultura etc. Os ingredientes desta Pedagogia só podem ser o diálogo e a liberdade”.
Justifica-se, assim, amplamente, a criação e funcionamento de escolas espíritas, no ensino fundamental, médio e superior. Não para ensinar Espiritismo nem para fazer proselitismo, mas para educar à luz da Doutrina Espírita, de forma integral, com uma visão sociológica, psicológica, filosófica e biológica do educando como ser reencarnado e a conseqüente pedagogia norteada pela filosofia, ciência e moral espíritas.

A escola espírita é viável, pois, do ponto de vista doutrinário. E na prática?

A Escola Espírita será uma instituição particular. Pode ser mantida por cooperativa, S/A, sociedade por cotas ou associação civil sem fins lucrativos, todas constituídas nas formas previstas no Código Civil.
Será gratuita? Integralmente ou só para os que não podem pagar?

Não sendo totalmente gratuita, os que têm recursos pagarão proporcionalmente à sua capacidade financeira?
Sendo gratuita, qual a fonte de financiamento para os custos operacionais e os investimentos?
Deve-se registrar que o “dar de graça o que de graça recebestes” refere-se ao exercício da mediunidade. Uma Escola Espírita deve gerar recursos próprios para a sua sobrevivência e o seu desenvolvimento, não podendo ficar à mercê de esmolas do poder público, dadas, geralmente, por políticos interessados em trocar a moeda “subvenção” pela moeda “voto”. Há que se pensar, todavia, nos que não podem pagar o preço da mensalidade fixada, total ou parcialmente. Para esses a ação é conseguir “padrinhos” – pessoas físicas ou jurídicas – que possam custear os seus estudos?
O professor e os demais profissionais da educação (administradores, orientadores, supervisores, psicólogos, técnicos, auxiliares), serão voluntários ou remunerados segundo o mercado de trabalho? Ou um misto dessas duas opções?
O professor, o administrador e demais profissionais envolvidos na Escola Espírita devem ser, necessariamente, espíritas?
Além da formação acadêmica do professor e dos demais profissionais da educação, deve-se exigir formação espírita em curso ministrado por instituição espírita? O curso pode ser substituído por testes, análise de curriculum vitae, entrevista ou outra forma de avaliação dos conhecimentos espíritas?

Haverá no mercado profissionais espíritas em quantidade suficiente para atenderem à implementação da Escola Espírita?

Qual o procedimento em relação ao profissional não espírita, quando inexistir o profissional espírita para determinada função?
Os currículos escolares têm diretrizes gerais fixadas pelo Ministério da Educação e, suplementarmente, pelos Conselhos de Educação. Há uma parte, embora pequena, em que a Escola pode decidir o que incluir, tanto em conteúdo quanto em duração. O que incluir? O Esperanto deve ser disciplina obrigatória nas escolas espíritas? Os programas das disciplinas curriculares obrigatórias devem ter conteúdo espírita?
As Escolas Espíritas existentes adotam a Educação Espírita em seu procedimento didático-pedagógico-administrativo? Que tipo de evento poderia servir de mecanismo para uma avaliação do sistema e do desempenho das escolas espíritas em funcionamento, para identificação de problemas e de soluções?
Que papel podem desempenhar os eventos e a imprensa espíritas no desenvolvimento da Educação Espírita? E a faculdade, centro universitário ou universidade espíritas?

Enfim, a escola espírita é viável?
Estas perguntas terão que ser respondidas pelos grupos e pessoas espíritas interessados na implementação da Escola Espírita, em sua comunidade. Ou a faculdade espírita. Não existe modelo. Não existem respostas prontas e acabadas. Elas devem ser encontradas tendo a Doutrina Espírita por base e as realidades locais como bússola, para o estabelecimento de objetivos, metas, princípios e operacionalização da Escola Espírita.
A Escola Espírita tem de ser um laboratório de experiências educacionais e de estudos e pesquisas de uma Pedagogia à luz do Espiritismo. Será, sempre, uma escola dinâmica, revolucionária, libertária, em construção permanente.

1.8. Biblioteca e museu espíritas
A maioria dos centros espíritas possui uma biblioteca sem vida, um depósito de livros. Os que não têm recursos para comprar os livros da Doutrina necessitam do apoio dessas bibliotecas.
A memória das casas espíritas, com poucas exceções, é totalmente desprezada ou negligenciada.
A difusão do Espiritismo e a memória espírita dependem, em grande parte, da existência e do funcionamento regular de bibliotecas e museus nas instituições espíritas. Esforços nesse sentido devem ser desenvolvidos pelos líderes espíritas, envolvendo a comunidade de cada instituição na implantação ou no aprimoramento desses departamentos.

1.9. Periódicos e multimídia
A publicação de periódicos espíritas é outro fator importante na divulgação do espiritismo.
Alguns espíritas entendem que devem ser fortalecidos os grandes periódicos da imprensa espírita e desestimulam a editoração de publicações avulsas ou revistas ligadas a grupos espíritas.

A proliferação de periódicos espíritas, desde que embasada fortemente na cultura espírita, contribui para maior alcance da divulgação do Espiritismo, pois, deve veicular notícias do grupo local e, ao mesmo tempo, temas doutrinários para a formação de quadros espíritas conscientes de sua função na sociedade.
A Internet, o rádio e a TV são outros veículos que podem ser utilizados, com maior intensidade, a custos quase zero. As rádios e TVs comunitárias são canais de baixo custo para a divulgação do Espiritismo e de suas ações.
Os periódicos eletrônicos, editados pela Internet, são de baixo custo e de amplo alcance, podendo serem lidos, ao mesmo tempo, em qualquer lugar do nosso planeta, imediatamente, após a sua inserção na rede.

1.10. Esporte e lazer
As práticas desportivas devem ser estimuladas, por intermédio de competições que propiciem a fraternidade, ao tempo em que promovem a educação física. Idem as atividades de lazer. As atividades físicas são importantes para a saúde do corpo somático, para que o espírito imortal tenha plenas condições de manifestação e de cumprimento de seu processo reencarnatório.

V – O FUTURO É AGORA
A casa espírita não pode continuar a ser uma casa de fantasmas, com uma quase exclusiva atenção aos fenômenos mediúnicos, nem uma entidade meramente assistencial-paternalista, a título de fazer a caridade. Caridade e mediunidade são elementos essenciais à prática espírita, deste que desenvolvidos à luz da Doutrina Espírita, sendo o amor em ação.
O centro espírita pode ser um hospital e um serviço de assistência social, mas, pode ser, também – e deve – uma escola e um núcleo cultural, um centro irradiador de realizações, que atinjam os aspectos materiais e espirituais da vida: uma Escola do Espírito.
A instituição espírita como centro educacional, onde a prática mediúnica, o serviço social, o ensino, a pesquisa, a cultura, as artes, os esportes e o lazer sejam setores dinâmicos, valorizados igualmente, tendo a filosofia, a ciência, a ética e moral espíritas como base, tem de ser a meta dos espíritas para as próximas décadas, objetivando o desenvolvimento da doutrina que Kardec codificou em meados do século passado – o Espiritismo.

BIBLIOGRAFIA

1. FRANCO, Divaldo Pereira (Ditado pelo Espírito Joanna de Angelis). Estudos Espíritas. Rio de Janeiro: FEB, 1982.
2. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 1973.
3. KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 1973.
4. KARDEC, Allan. Primeiras lições de moral da infância. In: Revista Espírita, Ano VII, Vol. 2, Fev. 1864, p. 37. Tradução de Júlio Abreu Filho. São Paulo, EDICEL, 1980.
5. PIRES, J. Herculano. Pedagogia Espírita. São Paulo: Edicel, 1985.
6. SOUZA, J. B. de. Tempo de Transição. Brasília: FEB, 1988.
7. VIEIRA, Waldo. (Ditado pelo Espírito André Luiz). Conduta Espírita. Rio de Janeiro: FEB, 1998.
8. VINÍCIUS, pseud. (CAMARGO Pedro de). Em torno do Mestre. Rio de Janeiro: FEB, 1979.
9. XAVIER, Francisco Cândido (Ditado pelo Espírito Emmanuel). O Consolador. Brasília: FEB, 1988.
10. OLIVEIRA, Wanderley Soares de (Ditado pelo espírito Ermance Dufaux). Lírios de esperança. Belo Horizonte: Dufaux, 2006.
11. SANTO NETO, Francisco do Espírito (Ditado pelo espírito Hammed). A imensidão dos sentidos. Catanduva, SP: Boa Nova, 2000.
12. INCONTRI, Dora. A Educação da Nova Era. São Paulo: Comenius, 2ª Ed., 1998.
13. OLIVEIRA, Wanderley Soares de (Ditado pelo espírito Ermance Dufaux). Lírios de esperança. Belo Horizonte: Dufaux, 2006.
14. OLIVEIRA, Wanderley Soares de (Ditado pelos espíritos Cícero Pereira e Ermance Dufaux). Atitude de amor. Belo Horizonte: Dufaux, 2005.
15. OLIVEIRA, Wanderley Soares de (Ditado pelo espírito Ermance Dufaux). Escutando sentimentos. Belo Horizonte: Dufaux, 2006.
16. OLIVEIRA, Maria José C. Soares. Seara Bendita. Maria José C. Soares de Oliveira; Wanderley Soares de Oliveira (ditado por diversos espíritos). Belo Horizonte: Inede, 2000.

17. OLIVEIRA, Wanderley Soares (Ditado pelos espíritos Ermance Dufaux e Cícero Pereira). Unidos pelo Amor. Belo Horizonte: Inede, 2004.
18. Jornada – Revista de Educação Espírita. Ano I, out/dez-1985, nº 1, p. 4. Duque de Caxias, RJ: Ide.
19. UNESCO, Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI. Educação: Um Tesouro a Descobrir. São Paulo: UNESCO, MEC, Cortez, 1999.
[1] Trabalho apresentado no III Fórum Nacional Espírita, em Curitiba, 2 a 4 de novembro de 2007.
[2] Consultor do Instituto Latino-Americano de Planejamento Educacional (ILAPE), Brasília, DF.
[3] O primeiro número entre parênteses, após cada citação, corresponde ao estabelecido para a respectiva referência bibliográfica, existente no final do trabalho; o segundo número, à página em que a referência está publicada.
[4] Ermance de La Jonchére Dufaux foi sócia-fundadora da “Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas” e um dos médiuns que colaboraram com Kardec na segunda edição de O Livro dos Espíritos.
[5] Hospital “do outro lado”, sob a supervisão do Espírito Eurípedes Barsanulfo.
[6] www.ermance.com.br
[7] www.oficinadossentimentos.com.br
[8] http://www.pedagogiaespirita.com.br/

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Seminário "Escutando Sentimentos em Guarapari- ES"




Alteridade e Pluralismo: Uma Análise das Condições da Democracia numa Sociedade Espírita do Conhecimento


Alteridade e Pluralismo: Uma Análise das Condições da Democracia numa Sociedade Espírita do Conhecimento.

Escreve: Luiz Signates
Em: Junho de 2010

Resumo

Este artigo tematiza as condições de possibilidade de formação de uma sociedade espírita integradas pela democracia e pelo conhecimento. Para isso, avalia as condições concretas em que se encontram o movimento espírita brasileiro, questionando as políticas de unificação e pureza doutrinária. Nesse sentido, procura demonstrar que o caminho do conhecimento e da democracia — que são as grandes e irrenunciáveis conquistas da modernidade — não é, nem pode ser, o da unificação dos conteúdos de pensamento. Para isso, estabelece esta última pretensão como uma herança do positivismo, somente viável num regime social autoritário, formas de vida que a filosofia e a ciência política têm superado desde o século 20, reposicionando a atitude do saber e a vivência democrática nas possibilidades do pluralismo e da convivência construtiva com as diferenças. Por fim, defende-se a necessidade de que o espiritismo se compatibilize com esses sentidos, a fim de que se mantenha atualizado em relação ao avanço dos tempos, evidenciando, sem prognosticar, a relativa improbabilidade de que isso venha a acontecer, devido à ausência significativa de sinais concretos que permitam identificar essa tendência.
Palavras Chaves: Alteridade, pluralismo, política, democracia, espiritismo.

Introdução

As temáticas da “unificação” e da “pureza doutrinária” não apenas têm sido dominantes no espiritismo brasileiro, ao longo de sua história, como, especialmente no interior do Brasil, gozam de uma legitimidade entre os espíritas que beira o consenso. Raros são os intelectuais orgânicos do espiritismo (oradores, escritores, articulistas etc.) que ousaram contestar tais noções, como direcionadoras do processo de organização do pensamento e das práticas espíritas, tendo havido muitos que as defenderam.

Atualmente, com a crescente e rápida penetração da Confederação Espírita Pan-Americana (Cepa) dentro do movimento espírita no país, começam a surgir os questionamentos a estes termos, tornando necessária uma reflexão mais profunda sobre os sentidos históricos e sociais que cercam essas noções, até para que as diferenças de posicionamento teórico ou político possam ser úteis, o quanto possível, ao enriquecimento das interpretações, mais do que ao fomento de divisões internas.

Uma reflexão dessa natureza é a pretensão deste trabalho. Para isso, procura-se demonstrar, inicialmente, o sentido contraditório das políticas de unificação e pureza doutrinária ao, por um lado, contribuir para a consolidação do processo de institucionalização do espiritismo brasileiro e, por outro, justificar o enrijecimento das possibilidades de diferenciação de interpretações e práticas espíritas. Em seguida, busca-se posicionar analiticamente a atual condição histórica do espiritismo organizado no Brasil, na qual a exigência ético-política de democratização, embora improvável, se torna cada vez maior no interior do movimento, sendo este, hipoteticamente, o principal leitmotiv da penetração de grupos como o da Cepa.

1. Unificação e Pureza Doutrinária: A Institucionalização do Espiritismo no Brasil



Escreve: Luiz Signates
Em: Junho de 2010


1. Unificação e Pureza Doutrinária:
A Institucionalização do Espiritismo no Brasil

Define-se aqui a institucionalização de um movimento como sendo o seu processo de autonomização sistêmica, no sentido habermasiano (1) do termo. Em termos de filosofia social, isso significa o descolamento dos contextos do mundo da vida das ações patrocinadas pelo movimento em referência, pela crescente utilização de mecanismos de controle e de poder, respaldados por instituições capazes de garantir a eficácia desses mecanismos ao longo do tempo. Em outras palavras, trata-se da modificação das bases de legitimidade do movimento em causa, quando deixa de referenciar-se nos sentidos sociais — na maioria das vezes, de onde ele se originou — para referenciar-se nas suas próprias instituições, as quais, nesse sentido, se “autonomizam” das demandas sociais. Ou, como afirmamos em outro texto, “a instituição passa a ter como principal finalidade a sua própria sobrevivência e o seu crescimento, e não a solução dos graves problemas sociais do mundo” (Signates, 2002).

Nos movimentos sociais, identificamos dois modos de institucionalização que se superpõem, adquirindo, cada um, as peculiaridades da situação histórica concreta em que se encontram: os processos de dogmatização e de ritualização, correspondentes, respectivamente, aos âmbitos simbólico e prático das ações coletivas. A dogmatização é a consolidação de um sistema de ideias e crenças; e a ritualização, de um sistema de ritos e práticas; ambos a serviço da consolidação de uma definição identitária forte, centrada em parâmetros de fidelidade ideológica. Por razões que nos parecem óbvias, e que não discutiremos aqui, quando sofre uma mudança assim, o movimento social perde o seu eventual caráter revolucionário de origem e torna-se conservador.

A hipótese com a qual este texto trabalha é a de que o movimento social espírita vive hoje o apogeu de um processo de institucionalização sistêmica, cujo marco histórico fundamental foi a criação, em 1949, do Conselho Federativo Nacional (CFN), junto à Federação Espírita Brasileira (FEB), cuja atuação contribuiu para consolidar um modelo hegemônico, tanto de interpretação quanto de prática do espiritismo no Brasil, e que hoje alimenta pretensões de se estender pelo mundo.

A observação dos conflitos que pontuaram o movimento espírita na primeira metade do século 20 não deixa dúvidas de que a grande questão àquela época era o processo de legitimação do espiritismo na sociedade brasileira e, para isso, o problema da identidade espírita aparecia como o principal. Desde o final do século 19, o espiritismo brasileiro se dividia entre místicos e cientificistas ou, em outra perspectiva, os “roustainguistas” e os “kardecistas”, desenvolvendo-se aí a disputa pela hegemonia do sistema de ideias e crenças. Igualmente nessa época conflitavam as identidades relacionadas às heranças culturais européia e afrobrasileira, que repercutiram na opinião pública como sendo o “alto espiritismo” e o “baixo espiritismo”, desencadeando-se nessa tensão a afirmação da identidade espírita no âmbito das práticas e ritos, fortemente marcada por conflitos étnicos e de classe.

Houve, é claro, diversas outras rupturas no movimento espírita, ao longo de sua história no Brasil e várias delas já examinadas por cientistas sociais. Entretanto, foram, em sua maioria, divisões internas que, ou foram absorvidas com o tempo, como foram os casos da Oscal (2) e da Concafras-PSE, ou se tornaram movimentos ou instituições independentes, como o Racionalismo Cristão (3) e a LBV (4), cujos núcleos identificadores não mais se concentram na identidade espírita. A luta ideológica pela identificação kardecista e pela exclusão das correntes e práticas típicas da cultura negra, ao contrário, não foi episódica, nem localizada: manteve-se no centro nervoso das disputas pela hegemonia dos sentidos do movimento espírita, percorreu com peculiaridades específicas todas as regiões brasileiras e constituiu o caldo de cultura no qual se consolidou o processo de institucionalização sistêmica do espiritismo no Brasil.

Tanto a discórdia teológica envolvendo a natureza do corpo de Jesus, quanto a disputa litúrgica para manter a ritualidade espírita afastada das tradições culturais e práticas negras, constituíram lutas pela hegemonia da identidade do espiritismo. Tais lutas serviram de base e referência para a consolidação de instituições de poder no movimento. Na virada do século 19 para o século 20, a supremacia dos místicos sobre os cientificistas estabeleceu a FEB como instituição referencial do movimento no Brasil. Na primeira metade do século 20, desdobra-se essa divisão entre os próprios místicos, na divergência entre Kardec e Roustaing, concentrada, sobretudo, na região sudeste do Brasil, que culminou na política de “unificação”, determinada institucionalmente pela criação do CFN, em 1949, e pela consolidação das federativas estaduais, ao longo das décadas posteriores.

As divergências teóricas e teológicas, contudo, tinham — como, de certa maneira, têm até hoje — um pé no amplo plano das práticas rituais. Desde o século anterior, o espiritismo aos moldes brasileiros, adaptado da herança francesa, conflitava violentamente com as tradições afrobrasileiras, remanescentes dos cultos escravos. É nesse campo de luta simbólica que se constrói o conceito de “pureza doutrinária”, como política de policiamento ideológico espírita. No plano da definição identitária, esse processo culmina com a publicação, pela FEB/CFN, do manual “Orientação ao Centro Espírita - 1980”. Essa política conferiu não apenas uma “disciplinarização“, como sugere Giumbelli (1997, p. 279), em sua tese doutoral, isto é, uma relativa unidade de funcionamento para os centros de todo o país, a partir de estratégias de regulação das práticas espíritas, mas também serviu de base para todo o processo de institucionalização sistêmica do espiritismo no Brasil.

É, pois, correto concluir que a institucionalização sistêmica do espiritismo brasileiro operou-se fundamentada por duas tendências: a dogmatização do sistema de pensamento de Allan Kardec e a ritualização das práticas consolidadas pela marcação das diferenças em relação às tradições negras. Resta, então, saber quais as vantagens e desvantagens que essas políticas trouxeram, não apenas para a afirmação da identidade espírita brasileira, mas, sobretudo, para a conformação institucional do movimento neste início de milênio, a fim de identificarmos, até onde for possível, as demandas sociais e políticas espíritas da atualidade.

Parece-nos autoevidente que o processo de dogmatização contribuiu para impedir a formação do que poderia ser denominado de uma “sociedade do conhecimento” na esfera espírita, uma vez que privilegia a ideia de um “pensamento único” dotado de legitimidade para suportar a identidade espírita.

O que Allan Kardec denominou “unidade de princípios” (Kardec, 1890, p. 342), como elemento de justificação da necessidade de que os adeptos, pela via do estudo, se mantivessem “esclarecidos” quanto à nova ciência, acabou se tornando toda uma política de transformação de seu pensamento — evidentemente interpretado de certa forma — em critério de verdade. Certamente, esta opção decorreu na adequação do espiritismo francês às práticas católicas que constituíam a experiência cultural possível da elite brasileira do século 19, desenvolvendo, assim, um autêntico relacionamento teológico com a obra de Kardec, apesar de suas pretensões “científicas”, as quais, evidentemente neste contexto, tornaram-se meramente ideológicas (Signates, 2000a).

O processo de ritualização ocorre muito mais tardiamente e é questionável se já se completou, embora haja sinais fortes nesse sentido. De toda forma, é possível afirmar que seu sucesso é bastante aparente, uma vez que há uma pressão constante pela conformação do espiritismo prático decorrente, a nosso ver, primeiro da postura histórica nesse sentido dos principais intelectuais orgânicos do movimento espírita (ver, por exemplo, Amorim, 1957; Lex, 1988; Anjos, 1989; Pires, 1979). São fortes os indícios de que as motivações identitárias do espiritismo brasileiro se situaram, sobretudo, na rejeição do mediunismo praticado pela cultura negra, ideologicamente inspirado nas interpretações da antropologia racista e evolucionista eurocêntrica do século 19, na qual o próprio Kardec (1890, p. 161 e seg.) se posicionou e que somente seria superada no Brasil a partir da década de 1930, mas que, por conta da inteira ausência de um diálogo com o meio científico, permaneceu no espiritismo brasileiro.

A opção por uma política de demarcação identitária contra as demais práticas de mediunismo situou o espiritismo brasileiro muito mais próximo das religiões cristãs tradicionais do que dos cultos mediúnicos, repontando, com isso, a proeminência de uma demarcação de classe e etnia, na produção de sua identidade específica. Essa característica é portadora de contradições éticas enormes, com as quais as lideranças espíritas terão que, mais cedo ou mais tarde, se defrontar.

Ambas estas condições chamam a atenção para a contradição profunda entre os modelos europeu e brasileiro de espiritismo, aquele, comprometido com o ideário iluminista e racionalista francês, e, este, transformado em uma grande religião organizada, que se orienta para o individualismo e as terapias de autoajuda, numa dinâmica de acentuada institucionalização sistêmica. A questão, nesse plano, é até que ponto se faz possível restabelecer o saber e as práticas espíritas em face das conquistas da modernidade, de que ele próprio é originário. Pensar essa questão é questionar o próprio futuro do espiritismo como movimento social.

2. Espiritismo e Modernidade: Entre o Saber e a Democracia


Escreve: Luiz Signates
Em: Junho de 2010



Parte 2

2. Espiritismo e Modernidade:
Entre o Saber e a Democracia

Indubitavelmente, o conhecimento científico e a democracia são as grandes e irrenunciáveis conquistas da modernidade. Mesmo que, no âmbito do pensamento econômico, ainda se possam identificar posturas anticapitalistas consistentes ou, no quadro das opções culturais, seja viável uma crítica fundamentada do consumismo e da colonização ideológica e etnocida, mesmo assim, todas estas possibilidades críticas, capazes ou não de fundar movimentos contestatórios orientados à transformação social, apenas seriam possíveis com a manutenção da racionalidade filosófico-científica como conquista máxima do pensamento, e da racionalidade ético-pragmática da democracia como conquista máxima da política.

Importante considerar que, nesta análise, não se quer cerrar os olhos para o regime de tensão que constitui a própria convivência destas duas racionalidades entre si. Numa rápida análise pragmática, parece simples constatar que, por um lado, a racionalidade filosófico-científica, domínio da episteme, tende a exacerbar a sua pretensão de verdade e, com isso, afirmar os demais setores do pensamento como “irracionais” ou “falsos” e, por outro, a racionalidade da política e da democracia, âmbito da doxa e da retórica, tende ao populismo e à demagogia, especialmente em sociedades como as contemporâneas, onde as tecnologias de comunicação se superpõem, a tudo virtualizando num jogo sem fim de imagens e discursos. Nem o saber especializado e sistematizado admite fácil a livre circulação da opinião comum, nem as escolhas democráticas podem ser necessariamente vinculadas nem mesmo às condições do saber e da informação historicamente conquistadas e disponíveis. Não há, contudo, como dispensarmos qualquer dessas conquistas, pois os reinos da ignorância e do despotismo, condições opostas àquelas racionalidades, são igualmente indesejáveis.

Esse posicionamento, contudo, embora predominante, jamais foi consenso na história da modernidade. O Iluminismo, na verdade, viveu intensamente a contradição dessas duas racionalidades. A ideia do “déspota esclarecido”, inspirada na república platônica, foi por muito tempo a expressão política da confiança desmedida nas capacidades da razão em forjar a felicidade humana — uma confiança, aliás, que marcou também o espiritismo desde a sua origem. O século 20, porém, com o seu rastro de atrocidades racionalmente coordenadas, que vão desde o Estado nazista até as atuais guerras tecnológicas e seus mísseis teleguiados com precisão “cirúrgica”, foi marcado pela crescente desconfiança nas possibilidades da razão. Assim, entre a denúncia pós-moderna do fim da razão e as esperanças neo-iluministas de uma razão não despótica, comunicativa e enraizada na ética, dentro de uma situação histórica de derrocada do chamado socialismo real e, por conseguinte, dos horizontes revolucionários, a democracia emerge no mundo contemporâneo praticamente como um valor em si, como a única forma de manter as conquistas da inteligência humana em condições de defesa contra a tirania dessa própria inteligência. Em síntese, a busca da atualidade é a da razão plural, da razão múltipla: não há racionalidade na ditadura, pois, ante o pensamento único, a primeira coisa que se perde é justamente a racionalidade.

Este é um macrocontexto dentro do qual o espiritismo se insere contraditoriamente. Marcado desde a origem pelo pensamento positivista, o espiritismo jamais conseguiu superar essa herança epistemológica. Allan Kardec trabalhava com os conceitos de verdade e razão únicas, de uma evolução linear do pensamento científico e de um modelo comprovacionista da atividade científica. Entretanto, Kardec praticava a ciência que ensinava e, certamente por isso, diversas vezes relativizou a conceituação positivista chegando, algumas vezes, à quase antecipação da discussão filosófica e científica. Este, por exemplo, é o caso, que analisamos em outro artigo (Signates, 1998), da antecipação de uma teoria consensualista de verdade, na formulação genial da tese do “controle universal do ensino dos espíritos” (Kardec, 1864, p. 28 e seg.). Além disso, mesmo que admitamos, como é forçoso fazer, um profundo enraizamento das ideias de Allan Kardec no positivismo e no racionalismo francês, seria injusto declarar que o codificador do espiritismo aprovaria a eleição de sua obra a dogma do espiritismo e a busca continuada por garantias institucionais e políticas de manutenção de uma identidade ideológica centrada no pensamento único.

Consideradas, ainda, as exigências de saber e democracia das sociedades atuais, parece óbvio considerar que políticas de unificação, com base nos critérios da pureza ou da vigilância doutrinária, dificilmente conduzirão a comunidade espírita a um formato cognitivamente plural e pragmaticamente democrático de espiritismo. Tanto a democracia quanto o saber, demandam um ambiente de liberdade de pensamento e ação, para se consolidarem em termos de seus próprios objetivos. A questão, portanto, neste ponto é verificar até que ponto o espiritismo brasileiro tem condições concretas de reverter um quadro de pensamento único, institucionalmente garantido, no âmbito das relações internas, pelos processos de disciplinarização, de exclusão e, no quadro das relações com os demais grupos sociais, pela insistente defesa da demarcação contínua das fronteiras identitárias. Com a análise desta problemática, concluiremos estas reflexões.