quarta-feira, 5 de setembro de 2012

"VÓS SOIS DEUSES"




Por Leonardo Pereira*
Vós sois deuses” (João 10:34) é uma afirmativa de Jesus muito utilizada no meio espírita, para gerar motivação e esperança. É acompanhada, em geral, do complemento “podem fazer o que eu faço e muito mais...” (João 14:12). (Neste artigo usamos a tradicional tradução de João Ferreira de Almeida corrigida e revisada).

Por ser de uso corrente, principalmente entre os oradores, consideramos que sua análise deve partir, primordialmente, do contexto original no qual Jesus a formulou, a saber: “Eu disse: Vós sois deuses, e todos vós filhos do Altíssimo.” (Salmo 82:6).

Reproduzamos, então, o que anotou o apóstolo João em seu Evangelho (10:23-38):

"E Jesus andava passeando no templo, no alpendre de Salomão. Rodearam-no, pois, os judeus, e disseram-lhe: Até quando terás a nossa alma suspensa? Se tu és o Cristo, dize-no-lo abertamente. Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo tenho dito, e não o credes. As obras que eu faço, em nome de meu Pai, essas testificam de mim. Mas vós não credes porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo tenho dito. As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai. Eu e o Pai somos um."

Os judeus pegaram então outra vez em pedras para o apedrejar. Respondeu-lhes Jesus: "Tenho-vos mostrado muitas obras boas procedentes de meu Pai; por qual destas obras me apedrejais?"

Os judeus responderam, dizendo-lhe: "Não te apedrejamos por alguma obra boa, mas pela blasfêmia; porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo". Respondeu-lhes Jesus: "Não está escrito na vossa lei: “Eu disse: Sois deuses?” Pois, se a lei chamou deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida (e a Escritura não pode ser anulada), Àquele a quem o Pai santificou, e enviou ao mundo, vós dizeis: Blasfemas, porque disse: Sou Filho de Deus? Se não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis. Mas, se as faço, e não credes em mim, crede nas obras; para que conheçais e acrediteis que o Pai está em mim e eu nele."

Observe que nessa passagem Jesus “cita” a lei já existente, ou seja, o Salmo 82:6; não faz nenhuma afirmativa, nem a anula. Usa a própria Lei Judaica para calar a boca da turba, pois a lei referia-se a homens comuns ─ embora homens de autoridade e prestígio (juízes) ─ muitas vezes, citados pela tradição judaica como “deuses". Vale salientar que a afirmação é do Salmista do Antigo Testamento, e não de Jesus, que a utilizou somente para demonstrar a contradição de seus perseguidores, ao acusá-lo de blasfemo. Depois de tudo isso, todos se vão, indo também Jesus rumo ao rio Jordão...

* * *

Quanto ao complemento da frase de Jesus, citada no início do nosso texto: “Podem fazer o que eu faço e ainda muito mais”, observemos que esta remete à sentença original: “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas...” (João 14:12).

Ambas as formas, por sua vez, fazem parte de um das mais ricas passagens do Mestre Nazareno, cuja essência demonstra estreita relação com os princípios básicos da Doutrina Espírita. Analisemos, pois, a partir do texto bíblico integralmente - João 14:1-17:

"Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também. Mesmo vós sabeis para onde vou, e conheceis o caminho. Disse-lhe Tomé: Senhor, nós não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho? Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim. Se vós me conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai; e já desde agora o conheceis, e o tendes visto. Disse-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, o que nos basta. Disse-lhe Jesus: Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras. Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim; crede-me, ao menos, por causa das mesmas obras.

Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque eu vou para meu Pai. E tudo quanto pedirdes em meu nome eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. Se me amais, guardai os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós."

Analisemos, então, o excelso ensinamento do Cristo:

Ao começar pedindo “credes em Deus, crede também em mim”, está em concordância com um princípio básico da Doutrina Espírita: a crença em Deus como “inteligência suprema, causa primária de todas as coisas” (1) ;

Em seguida, maravilhando os que O cercavam, ao dizer “Na casa de meu Pai há muitas moradas” também acorda com outro princípio básico da 3ª Revelação: a existência de “diferentes categorias de mundos habitados” (2) . Continuando com o roteiro seguro para a felicidade, assevera “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim”.

Mais adiante, respondendo a Felipe que O interpelara rogando para que lhe mostrasse o Pai, o Rabino da Galileia, com exímio raciocínio lógico, leciona acerca da fé raciocinada (princípio basilar espírita):

"Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras. Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim; crede-me, ao menos, por causa das mesmas obras."

É justamente nesse contexto que o Meigo Carpinteiro se utiliza da frase: “[...] Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas [...].

Finalmente, a maior correspondência doutrinária se dá quando, na excelsa passagem bíblica, o Mestre promete: “[...] eu rogarei ao Pai e ele vos dará outro Consolador para que fique convosco para sempre; o Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós.”. Assim, quando nos promete enviar um novo Consolador, ensina acerca da esperança, sobrevivência e retorno do espírito ao mundo corporal ─ princípios basilares do próprio Espiritismo.

Vale notar que o Cristo de Deus já nos trazia um Consolador: sua mensagem de amor e paz; suas lições de vida e felicidade; sua forma simples de dizer de nossas imperfeições e de nos apontar o caminho reto e seguro, pautados nas verdades eternas do 'amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo'. Logo, o Ser mais evoluído que pisara em nosso planeta, falava de Si mesmo e de Suas mensagens. Por outro lado, sabia, de antemão, que nós as esqueceríamos, motivo pelo qual faz sentido prometer um outro Consolador e rogar ao Pai enviar o Espírito da Verdade, que os apóstolos conheciam e estaria com eles.

E foi assim que aconteceu...

Transformados pela letra morta, ludibriados pelos poderes temporais dos sacerdócios em seu nome, movidos pela ambição e covardia, esquecemos as mensagens do Cristo. Deflagramos guerras santas, queimamos pessoas, destruímos ideias e ideais, levantamos falso testemunho, erigimos castelos de ouro e templos vazios - tudo em Seu nome, e Ele o sabia.

Vós sois Deuses”, disse o Mestre de Amor, mas à medida que seguirmos seu caminho: suportando nosso cadinho de dor, erigido nos dias de ontem (vivos, porém, na consciência de hoje), enviaria o Consolador, relembrando-nos de nossos compromissos perante a nossa consciência, perante Deus e perante os talentos desprezados nas sucessivas encarnações.

Este mesmo Consolador chega e fala-nos do Sublime Peregrino que exemplificou todas as Leis e os Profetas, dividindo a Historia em antes e depois d’Ele, vivificando o espírito da verdade de que tanto precisamos nos dias de hoje.

Sim, somos 'deuses', ou um templo divino!

E, para que o Reino de Deus se estabeleça em nós e seja compartilhado com o próximo, precisamos acreditar que isso, de fato, seja possível. Sem vaidade ou supervalorização, pois Deus não fere, não mata, não magoa, não rouba, não sofre, não se envaidece, nem é egoísta ─ “a Causa primária de todas as coisas” só pode ser Amor...

Salvemos, pois, o Consolador Prometido, que vivifica a letra e nos faz retomar a Fé com a Razão, que retira o véu dos textos apostólicos, transfigurando-os em frases iluminadas a nos banhar de conhecimento!
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(*) Leonardo Pereira é orador espírita e presidente do Gelp, em Goiabeiras, Vitória-ES.
1 – KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos: princípios da Doutrina Espírita.
67. ed. S.Paulo: FEB,/USE. 1985: Parte Primeira; Das Causas Primárias; Capítulo I; De Deus. pág. 51.
2 - KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo.106. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 1992.cap. III, pág. 71.
Imagem:http://www.imotion.com.br/. Acesso em: 10.04.10.
Formatação atualizada em 27.06.2012.

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