segunda-feira, 2 de maio de 2011

"Quais são suas obras"


*Por Leonardo Pereira
Estudo e comentários da mensagem contida no Evangelho Segundo o Espiritismo capítulo XVIII, ITEM 16, de autoria do espírito Simeão na cidade de Bordeaux, 1863..

 
Apesar da mensagem ser clara como o dia e límpida como água cristalina, realizando um estudo mais minucioso, verificamos ensinamentos profundos sobre o cristianismo do qual fazemos parte como espíritas cristãos.
Em verdade estamos sendo muito teóricos. Nos falta muito da prática do cristianismo verdadeiro. Sinceramente, como bom mineiro, posso dizer: "bota falta nisso!".
Poderia começar a falar da mensagem de uma forma diferente, mas, colocando meus pensamentos em dia, o que me vem à mente é justamente o titulo da mensagem como uma interrogação insistente a me exigir uma resposta: "Quais são suas obras?".
"- Minhas obras?" - Pergunto-me como se dialogasse com um interlocutor desconhecido.
Busco na memória as obras que tenho feito no sentido de numerá-las, mas, não encontro nada, absolutamente nada que valha a pena de ser colocada como uma obra do Cristo.
Triste, observo que tenho realizado apenas fragmentos de caridade, muitas vezes obrigado pelas circunstâncias, e, tantas outras para ser visto ou provar para mim mesmo que sou bom.
Caro leitor, se eu lhe devolvesse a pergunta qual seria a sua resposta? Quais são suas obras?
Deixemos as perguntas pairando no ar e comecemos o estudo.

 
1 - Pelas suas obras é que se reconhece o cristão e "..Nem todos os que me dizem: Senhor! Senhor! entrarão no reino dos Céus, mas somente aqueles que fazem a vontade de meu Pai que está nos Céus."

 
O Brasil tem hoje cerca de cento e noventa milhões de habitantes. Grande parte dessa população brasileira se diz Cristã.
Mesmo que o censo, realizado pelo IBGE, não apresente exatamente tais números no que diz respeito às religiões, fazendo uma análise do contexto religioso no País somos cerca de cinquenta milhões de evangélicos, setenta milhões de católicos e trinta milhões de espíritas (incluindo os simpatizantes). Estes números nos colocam como o segundo maior país cristão do mundo estando apenas atrás dos Estados Unidos da América do Norte.
Sendo assim, como um país efetivamente cristão, podemos levantar outra pergunta:
"-Se somos cristãos como deixamos cerca de vinte milhões de irmãos brasileiros viverem, ou melhor, sobreviverem abaixo da linha da pobreza, em verdadeiro estado de miséria?"
Será que nosso cristianismo é somente de Senhor, Senhor? Ou seja, vivemos o Cristo da boca para fora e não convivemos com Ele em nosso íntimo?
Isso tudo nos indica que só de conversa ninguém conquista o reino dos céus, pois, esse reino não é lá ou acolá, não é um lugar no espaço, mas sim dentro de nós.
Trata-se de um estado de espírito que chama-se consciência do dever cumprido.

 
2 - Escutai essa palavra do Mestre, todos vós que repelis a Doutrina Espírita como obra do demônio. Abri os ouvidos, que é chegado o momento de ouvir.

 
A palavra demônio vem do grego "Daimom" ou "Daemom", significando divindade ou espírito (1).
Para muitas pessoas somos cultuadores do demônio, e, ainda, dizem que fazemos o bem ou praticamos a caridade por obra do demônio. Como isso é possível?
Observemos o que fala Jesus (Mateus 12) quando, por ocasião de ter realizado uma cura foi acusado de expulsar os demônios por ser servidor de belzebu (rei dos demônios): " - Se Satanás expulsa a Satanás está dividido contra si mesmo; como subsistirá, pois, o seu reino?"
É tempo de parar de avaliar os outros pelos rótulos religiosos e começar a conhecer intimamente o que vai em cada coração.
O mal não produz o bem e o bem não produz o mal.
É tempo de ouvir o Cristo e não apenas escutar repetições dos textos bíblicos. Ouvir é mais profundo. É quando paramos e meditamos sobre: o que escutamos, o que lemos, o que conversamos e principalmente o que vivemos.
É tempo de religiosidade que, diferente de religião, é a prática do amor no dia a dia.
3 - Será bastante trazer a libré do Senhor, para ser-se fiel servidor seu? Bastará dizer: "Sou cristão", para que alguém seja um seguidor do Cristo?

 
O texto fala que não basta vestir a farda de servidor (libré), ou, apenas ter "aparência".
Não basta dizer "sou cristão" e, pronto, "estamos salvos"!
Apesar de  muitos acreditarem nisso e viverem uma vida de aparência e auto enganação, nós, os espíritas, sabemos que não basta manter aparência de cristãos.
Mesmo assim, nossas casas estão rodeadas de hipócritas: sorriem na nossa frente e nos abraçam com tapinhas nas costas, e, logo depois, na nossa ausência desfilam o veneno da maledicência. Dentro do centro são pessoas boas e fora são verdadeiros carrascos.
Tem ainda os que se apoderam de cargos vitalícios impedindo muitas instituições de progredir fechando as portas a qualquer ideia de melhora. Fazem politicas rasteiras para continuar no poder (temporal) e usam de todos os meios para puxar o tapete dos que não pensam igual a eles.
Sabemos que existem pessoas boas e ignorantes em todas as religiões, mas, alguém que age assim pode se dizer espírita? E principalmente Cristão?

 
4 -Procurai os verdadeiros cristãos e os reconhecereis pelas suas obras. "Uma árvore boa não pode dar maus frutos, nem uma árvore má pode dar frutos bons."— "Toda árvore que não dá bons frutos é cortada e lançada ao fogo." São do Mestre essas palavras. Discípulos do Cristo compreendam-nas bem! (grifos meus).

 
Nesse item Jesus apresenta a lógica perfeita nos mostrando a resposta precisa de como devemos agir.
Devemos compreender a lição! Como ser verdadeiros cristãos? Verdadeiros espíritas?
É muito simples entender o recado, o complicado é colocar a lição em pratica. Vejamos:
Qualquer pessoa que se diga cristão deve agir, em tese, de acordo com as recomendações do Cristo, não é assim?
Resumindo os mandamentos da lei mosaica Jesus recomenda: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo".
Fica claro que para sermos verdadeiros conosco e com Jesus temos que vivenciar essas lições no dia a dia. Isso realmente acontece? Não, é claro que não!
Amamos coisas e pessoas acima de Deus. Gostamos mais da riqueza, do poder, da posse, dos títulos.
E o próximo? Ah! O próximo sou eu mesmo, não penso em mais ninguém, são todas as minhas vontades que devem ser atendidas. Gosto de quem gosta de mim. Dou presente se também recebo. Ajudo para ser visto. Dou o que não preciso mais, e, muitas vezes o que não serve para mais ninguém. Infelizmente, ainda nos comportamos assim!
Comecei o texto perguntando sobre nossas obras. A consciência me incita a elaborar mais essa questão: "- Que frutos são os nossos?"

 
5/6- Que frutos devem dar a árvore do Cristianismo, árvore possante, cujos ramos frondosos cobrem com sua sombra uma parte do mundo, mas que ainda não abrigam todos os que se hão de grupar em torno dela? Os da árvore da vida são frutos de vida, de esperança e de fé. O Cristianismo, qual o fizeram há muitos séculos, continuam a pregar essas virtudes divinas, esforça-se por espalhar seus frutos, mas quão poucos os colhem!

 
As lições de Jesus são verdadeiramente os frutos da vida. Da vida eterna, pois, nos ensina que a morte não existe e que a vida continua. Principalmente, fala da nossa destinação a felicidade.
Contudo, a mensagem conhecida do cristianismo não consegue retirar o véu dos olhos dos adeptos que continuam a pregar uma "verdade" fragmentada e incapaz de suportar uma análise mais profunda.
Diante de uma observação mais profunda, passando pela mensagem do Mestre Nazareno, dos trabalhadores da casa do caminho do passado, chegando às igrejas opulentas dos dias de hoje, verificamos que há muita diferença nas ações dos cristãos da nova era, ficando claro que o Cristo Jesus perdeu seu lugar, seu espaço.
Seus exemplos se perderam na poeira dos tempos. Tudo foi transformado em politica e interesse onde o que vale é o que se estabelece nos concílios e nas bulas papais. Digo isso com relação à igreja católica.
Já com relação às igrejas protestantes cada qual faz dos ensinos do Cristo o caminho que mais lhes possa oferecer segurança, fieis seguidores e poder.
Observando ainda o New pentecostalismo e sua teologia da prosperidade, segundo a qual "Deus" vai prover de bens materiais todas as pessoas bastando para isso aceitar Jesus e estar disposto a doar o que tem em troca do que se quer, traz uma religião de barganhas e promessas sem resultados morais e práticos pregando um Deus arcaico e vingativo, especulativo e materialista e, ainda, altamente seletivo.
Já no espiritismo verificamos centros grandes onde as pessoas não tem identidade e são apenas números em fichas distribuídas. Em muitos centros espíritas encontramos de tudo, menos Jesus. Estudam de tudo, falam de tudo, contudo, sem nenhuma vivencia do evangelho. Algumas instituições do espiritismo cristão se dizem criadas para ensinar espiritismo, outras para dar coisas. Existem aquelas que se dizem criadas para capacitar as pessoas a fazer bem, mas, elas mesmas não o fazem. Como podemos nos vestir com a faixa da nova revelação e arrotar teorias sem amor? Como falar de cristianismo? Da árvore da vida?
Como diziam os indígenas dos portugueses no processo de colonização do Brasil, é muito NHENHENHÉM. (2)

 
7 - A árvore é boa sempre, porém maus são os jardineiros. Entenderam de moldá-la pelas suas ideias; de talhá-la de acordo com as suas necessidades; cortaram-na, diminuíram-na, mutilaram-na; tornados estéreis, seus ramos não dão maus frutos, porque nenhuns mais produzem. (grifos meus).

 
Os jardineiros mencionados somos todos nós, que, como cartas vivas do evangelho do Cristo, não chegamos onde precisávamos chegar. Pairando na superfície dos ensinamentos divinos, sem os praticar em verdade e vida, transformamos os ensinos em pontos de vista e interpretações que mais nos convém para o momento.
Responsáveis por cuidar da árvore da vida e de seus frutos, como os cristãos do passado, arrancamos dela a seiva do amor puro e verdadeiro e acabamos adubando-a com mentiras, orgulho, egoísmo, vaidade, gerando dores que terão que ser resgatadas na esteira das reencarnações.
Como jardineiros do universo, convidados a cuidar, produzir e espalhar as sementes do cristianismo na sua pureza por todos os cantos da terra acabamos derrubando, no quintal de nossos enganos, os frutos sagrados da imortalidade, da justiça e da caridade.
Assim, essas verdades eternas e imutáveis são lançadas ao solo de nossas consciências e abafadas pela ignorância dos tempos passados e do intelectualismo sem moral dos dias atuais.
Precisamos, com urgência, reformar nossas atitudes semeando o bem no solo árido de nossos corações, adubando todo dia com o suor do trabalho no bem e a água da humildade e tomando como exemplo o amor de Jesus. É tempo de sair a semear.

Continua: na próxima semana estaremos publicando o final do  texto 

*Leonardo Pereira
Designer Gráfico - Orador espírita
Colaborador do Grupo Espírita Lamartine Palhano Jr em Vitória do ES

  
Fontes de consulta:
(1) Daemon (mitologia) Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre. Daimon ou daemon (grego δαίμων, transliteração dáimon, tradução "divindade", "espírito"), é um tipo de ser que em muito se assemelha aos gênios da mitologia árabe. A palavra daimon se originou com os gregos da Antiguidade; no entanto, ao longo da História, surgiram diversas descrições para esses seres. O nome em latim é dæmon, que veio a dar o vocábulo em português demônio.
(2) - NHENHENHÉM* Nheë, em tupi, quer dizer falar. Quando os portugueses chegaram ao Brasil, os indígenas não entendiam aquela falação estranha e diziam que os portugueses ficavam a dizer "nhen-nhen-nhen".
(3) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, 60a ed., FEB, Conclusão, item VII.
(4) Kardec, Allan, O Livro dos Médiuns. 26a ed., FEB, 1ª parte, cap. III, item 28 

(5)
(Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. .XV, item 5).
(6) (Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVII, item 4).

  
Imagem do google: http://ribalmeida33.files.wordpress.com/2010/07/jesus-ressuscita-a-menina.jpg?w=400&h=301

 

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