domingo, 15 de maio de 2011

"Quais são suas obras"


*Por Leonardo Pereira

Estudo e comentários da mensagem contida no Evangelho Segundo o Espiritismo capítulo XVIII, ITEM 16, de autoria do espírito Simeão na cidade de Bordeaux, 1863..

Continuação:
 
8 -O viajor sedento, que se detém sob seus galhos à procura do fruto da esperança, capaz de lhe restabelecer a força e a coragem, somente vê uma ramaria árida, prenunciando tempestade. Em vão pede ele o fruto de vida à árvore da vida; caem-lhe secas as folhas; tanto as remexeu a mão do homem, que as crestou. (grifos meus).


Muitos têm buscado na doutrina espírita as respostas para seus dramas e suas dores. Tentam entender o porquê da vida, do sofrimento, das doenças, desigualdades sociais, e, principalmente, decifrar os enigmas da morte física e as verdades do pós-morte.
Desorientados e sem encontrar essas respostas em suas religiões aportam em nossas instituições querendo soluções imediatas para tudo e para todas as coisas. Frutos de um mundo atribulado e apressado ficam na periferia da doutrina espírita sem se aprofundar ou buscarem modificar o pensamento e as ações.
Nós muitas vezes também contribuímos para a inércia de muitos e a desilusão de outros tantos por não sabermos acolher!
Transformamos nossas reuniões em burocracia querendo ver nossas casas grandes e cheias de gente mesmo que essa "gente" não saiba o que esta fazendo ali.
Buscamos temas complicados e palestrantes com fala rebuscada que, na verdade, ninguém sabe o que realmente querem dizer. Não conseguem consolar e esclarecer, fundamento básico para qualquer reunião de estudos da doutrina espírita.
Tratamos as pessoas com indiferença, não percebemos o irmão ou irmã sentados semana a semana na nossa casa, não sabemos seu nome, de onde veio, porque veio?
Criamos tantos trabalhos e atividades e não vemos os trabalhadores. Não paramos para observar, escutar e principalmente para amparar. O pobre e estropiado não tem lugar em muitas das nossas casas espiritas. Elitizamos os centros onde são bem vindos os ricos, famosos e doutos, contudo, os que buscam o fruto da árvore da vida realmente não encontram nada. A árvore não germinou. Nossa árvore está seca.
Queremos templos gigantes, luzes e grandes plateias. Tudo isso como fruto do atavismo religioso que trás de volta os antigos lideres cristãos acostumados com a pompa das grandes catedrais.
Queremos os grandes congressos para divulgar e ensinar as pessoas, onde quanto mais gente melhor para que possamos divulgar: "o nosso foi 1000 pessoas", "minha semana espírita foi a melhor", "eu trouxe fulano e ciclano".
Na verdade queremos nos fazer grandes quando a recomendação é de sermos pequenos e humildes.
É preciso olhar nosso irmão de doutrina e sentir quando ele está bem ou não. Saber da sua vida e saber quem é ele ou ela!
Que frutos sua casa espírita tem dado?


9 - Abri, pois, os ouvidos e os corações, meus bem-amados! Cultivai essa árvore da vida, cujos frutos dão a vida eterna. Aquele que a plantou vos concita a tratá-la com amor, que ainda a vereis dar com abundância seus frutos divinos.

 
Allan Kardec, o insigne codificador, nos convida a amar e nos instruir. Com isso reconhece a necessidade de aprimoramento intelectual, mas, também de autoconhecimento. No processo de amar é preciso auto amor. Somente assim cultivaremos a árvore da vida.
Em um planeta em transição, o amor, fruto da árvore divina, deve florescer em cada um de nós.
É importante nesse momento a dedicação ao bem comum e a pratica da caridade pura como Jesus nos ensinou.
Assim, fica fácil perceber quão abundante serão os frutos de nossa colheita pessoal.

 
10 - Conservai-a tal como o Cristo voa-la entregou: não a mutileis; ela quer estender a sua sombra imensa sobre o Universo: não lhe corteis os galhos. Seus frutos benfazejos caem abundantes para alimentar o viajor faminto que deseja chegar ao termo da jornada; não amontoeis esses frutos, para armazená-los e deixar apodrecer, a fim de que a ninguém sirvam.

 
Por muitos séculos temos lutado em guerras pelo poder e pela posse. Temos exercitado o orgulho e a vaidade procurando sempre os tesouros perecíveis da vida material. Com isso, esquecemo-nos de praticar o bem e, mais, esquecemos que respondemos por todo mal gerado do bem não praticamos em favor do próximo.
A árvore do cristianismo em sua pureza recebeu, nos exemplos do sublime carpinteiro de Nazaré, os mais belos exemplos de vida, que alguém poderia no legar, lecionando magistralmente,  como agir, perdoar, amar, dividir e doar em todos os instantes.
Fica bastante visível que com a falta da caridade, da justiça e do amor aos semelhantes cortamos os galhos que se estendiam com seus frutos que alimentariam a multidão esfomeada de amor.
Sem o agasalho do perdão e da caridade a justiça divina perde seu poder de curar e deixa de ser o balsamo que alivia,   transformando o mendicante de justiça em criminoso e pecador.
Passamos tanto tempo amontoando os frutos do conhecimento sem praticar o bem, sem consolar nem esclarecer, que acabamos transformando todo conhecimento em lixo.
Esperamos tanto para distribuir os frutos do Cristo redevivo, perdendo tempo avaliando se as pessoas podem comer, se sabem comer, ou, se é hora de comer. Colocamo-nos na condição de espíritos evoluídos e passamos a decidir até quem pode comer. Avaliamos o outro pelo intelecto, cultura e dinheiro.
Será que não estamos deixando os frutos do amor apodrecer aos pés de nossas portas fechadas?

 
11 - "Muitos são os chamados e poucos os escolhidos." É que há açambarcadores do pão da vida, como os há do pão material. Não sejais do número deles; a árvore que dá bons frutos tem que os dar para todos. Ide, pois, procurar os que estão famintos; levai-os para debaixo da fronde da árvore e partilhai com eles do abrigo que ela oferece.

 
O Arquivo mental de nossas vidas pretéritas, o que fomos e como fomos, se apresenta na personalidade atual em forma de tendências. Ao analisarmos essas tendências sabemos quem realmente somos.
Ainda egoístas e orgulhosos e presos às paixões do mundo que nos impõem necessidades, tais como as de conquistar e dominar, não queremos ficar para trás, pois, acreditamos que nascemos para sermos os primeiros em tudo.
Muitas vezes quando fracassamos na vida social, familiar ou profissional acabamos conseguimos a projeção que nos faltava dentro das religiões. Nesse momento o atavismo reencarnatório nos faz querer mais e mais o poder.
Acreditando que somos dominadores das mentes das outras pessoas, nos tornamos os açambarcadores (nos apoderamos dos bem do senhor).Usamos o conhecimento das escrituras, da bíblia, do corão, dos livros de Allan Kardec, dos conhecimentos milenares trazidos por benfeitores da vida maior em todas as partes da Terra para sobrepujamos os irmãos, que chegam até nós trazidos pelas suas dores incompreendidas, recheados de perguntas e esfomeados de respostas.
Usamos e abusamos dos cargos. Esses abusos tem um triste registro na história do cristianismo chegando às fileiras do espiritismo cristão onde a disputa por cargos, a necessidade de títulos e rótulos, a pregação proselitista e a luta pela tal "pureza" doutrinária tem causado muito mal.
Diante de tantas fugas da realidade, e, novamente transformando a mensagem de Jesus, continuamos como os sacerdócios do passado, agora, com roupagem democrática, "aqui todos podem" , mas, "só alguns tem a capacidade". É preciso fazer esse ou aquele curso de catecismo espírita para trabalhar, amar, doar, e, se você não faz, "que pena, não pode ficar".
Então, é hora de mudar. A árvore da vida doa seus frutos para todos. É urgente caminharmos em busca dos famintos e trazê-los para se alimentar da árvore do cristianismo.
Tal qual o samaritano da parábola devemos descer do cavalo, nos aproximar, pesar as feridas deitando-lhes o azeite do carinho, cobrindo-lhes com o cobertor da caridade e o abrigando-lhes na hospedaria do senhor. Essas hospedarias são as igrejas, os templos, os centros espíritas, os terreiros de umbanda e todos os  outros lugares onde o bem se faz presente.
É necessário e imprescindível aprender a acolher e evangelizar, principiando pela auto-evangelização.

 
12- "Não se colhem uvas nos espinheiros." Meus irmãos, afastai-vos dos que vos chamam para vos apresentar as sarças do caminho, segui os que vos conduzem à sombra da árvore da vida.

 
Duas são as portas que nos levam da vida terrena. Tais portas são escolhidas pela conquista do livre arbítrio e podem nos lançar em regiões de trabalho e aprimoramento ou em regiões de sofrimento.
A porta do bem é sempre estreita, difícil de passar, requer esforço, dedicação, coragem, humildade e amor. A porta larga é a porta dos prazeres materiais, do orgulho, do egoísmo, da negação do bem e a ostentação do poder.
Essas portas nos trazem os estados de céu interior ou de inferno astral, onde vivenciamos e nos alimentamos pelos frutos de nossas escolhas. Se buscarmos a árvore da vida receberemos o alimento do conhecimento aprenderemos a semear e não demoraremos a colher bons frutos. Se, ao contrario, escolhemos as sarças do caminho ou seguirmos os que gostam de "sarças" a lei Divina nos conduzirá a viver com nossos semelhantes colhendo sempre o que plantamos.
Há de ficar claro que mesmo seguindo a porta larga nunca estaremos desamparados, pois, a oportunidade de mudar de se transformar e refazer os caminhos sempre existe, e, ainda poderemos escolher o melhor e o mais doce fruto: o amor, apenas lembrando, esse caminho mais fácil no início é responsável por muitos dificuldades no futuro dos que o escolhem.

 
13 - O divino Salvador, o justo por excelência, disse, e suas palavras não passarão: "Nem todos os que dizem: Senhor! Senhor! entrarão no reino dos Céus; entrarão somente os que fazem a vontade de meu Pai que está nos Céus."
Realmente não basta dizer: " Senhor! Senhor!". O reino dos céus não se conquista com palavras. É preciso muita ação no bem, profundo senso de abnegação e trabalho constante de humildade e resignação.
Allan Kardec sabia disso e nos alertou em relação a nossa fala espírita e nossa pratica do espiritismo. Vejamos seus apontamentos: (3)
  1. Os que creem nas manifestações: espíritas experimentadores. Só se importam com os fenômenos e sua explicação científica.
  2. Os que, além dos fatos, compreendem as consequências morais, mas não as colocam em prática: espíritas imperfeitos, que não abrem mão de ser como são.
  3. Aqueles que praticam a moral espírita e aceitam todas as suas consequências: os verdadeiros espíritas ou espíritas cristãos, apresentando duas características básicas: a caridade como regra de proceder, e, pela compreensão dos objetivos da existência terrestre, o esforço "por fazer o bem e coibir seus maus pendores" (3).
  4. Os demasiadamente confiantes em tudo que se refere ao mundo invisível, aceitando sem verificação ou reflexão todos os conteúdos que lhes chegam ás mãos: espíritas exaltados. Este tipo de adeptos é mais nocivo que útil à causa espírita. (4)
Diante dessas colocações de Kardec como nos enquadrar ou avaliar? Que tipo de espírita somos nós?
Kardec, ainda, informa o caminho para recuperarmos o cristianismo esquecido e vivenciarmos os ensinos do Cristo Jesus em nossas relações, em nossas vidas, resumindo todos os deveres do homem na máxima: "Fora da caridade não há salvação"(5)
Complementando com o preceito: "Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral, e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações". (6)

 
14 - Que o Senhor de bênçãos vos abençoe; que o Deus de luz vos ilumine; que a árvore da vida vos ofereça abundantemente seus frutos! Crede e orai. — (SIMEÃO. Bordeaux, 1863.)

 
Não há tempo para substituições, cada um de nós esta inserido no seu campo de trabalho. São muitas as oportunidades de fazer o bem de sermos caridosos, equilibrados, brandos e pacíficos.
As provas são muitas e muitos são os que expiam suas faltas, contudo, se percebermos a vida com um olhar de impermanência, um olhar na vida futura saberemos que tudo passa e que as provas e expiações, escolhidas por nós pelo livre arbítrio das ações, nos atrela ao carro das reações.
A misericórdia Divina chega pelas bênçãos da reencarnação oportunizando uma vida nova, um tempo novo, novas oportunidades redentoras, que só s cabe a cada um, individualmente, cumprir ou executar.
Que o senhor da vida nos fortaleça e ilumine a consciência!

 
*Leonardo Pereira
Designer Gráfico - Orador espírita
Colaborador do Grupo Espírita Lamartine Palhano Jr em Vitória do ES

 

 
Fontes de consulta:
(1) Daemon (mitologia) Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre. Daimon ou daemon (grego δαίμων, transliteração dáimon, tradução "divindade", "espírito"), é um tipo de ser que em muito se assemelha aos gênios da mitologia árabe. A palavra daimon se originou com os gregos da Antiguidade; no entanto, ao longo da História, surgiram diversas descrições para esses seres. O nome em latim é dæmon, que veio a dar o vocábulo em português demônio.
(2) - NHENHENHÉM* Nheë, em tupi, quer dizer falar. Quando os portugueses chegaram ao Brasil, os indígenas não entendiam aquela falação estranha e diziam que os portugueses ficavam a dizer "nhen-nhen-nhen".
(3) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, 60a ed., FEB, Conclusão, item VII.
(4) Kardec, Allan, O Livro dos Médiuns. 26a ed., FEB, 1ª parte, cap. III, item 28 

(5)
(Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. .XV, item 5).
(6) (Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVII, item 4).

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário