sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Antidoutrinário é não amar!


Caro leitor, para abordar tão espinhoso assunto necessário se faz trazer a interpretação literal da palavra Antidoutrinário:
Antidoutrinário (an-ti-dou-tri-ná-rio) = adj. (anti+doutrinário) Que está em desacordo com certa doutrina.
Mas o que vem a ser doutrina?
Doutrina (dou-tri-na) s. f. Conjunto de princípios de uma escola literária ou filosófica, de um sistema político, econômico etc., ou de dogmas de uma religião. Fonte do direito, constituída pela opinião de juristas.
O que vem a ser Dogma?
Dogma (dog-ma)s. m. Ponto fundamental de doutrina religiosa ou filosófica, apresentado como certo e indiscutível.
Visualizando a palavra "Doutrina", percebo que me parece algo fechado, pronto, acabado, que não poder ser mudado, melhorado, questionado ou mesmo posto em duvida.
Diante dessa tradução literal da palavra, fico a pensar se realmente o eminente pedagogo francês, Allan Kardec, quando sistematizou e organizou, em forma de catecismo da época, o livro dos espíritos (em 1857), tinha a intenção de criar uma doutrina fechada.
Na sua primeira edição traz em sua folha de rosto, o nome que define o seu conteúdo "Filosofia Espiritualista".
Nas doutrinas há sempre um dogma, um ponto que se fixa como imutável, já na filosofia, temos à abertura necessária para avançar, questionar, e principalmente evoluir o campo do pensamento.
Já há 153 anos em suas publicações Allan Kardec apresentava suas idéias de forma tão progressista (vide as revistas Espíritas, também publicadas por ele no período de 1858 a 1860), atuando tão na vanguarda do conhecimento da época que até hoje, tais idéias são desconhecidas por muitos de nós.
Vejo , como se olhando por uma luneta temporal, o mestre de Lion á reler todos os escritos e colocá-los a prova, em suas revisões, tendo por isso mudado algumas questões da sua primeira edição, como a questão 138, logo abaixo, que foi retirada na segunda edição de o Livro dos Espíritos: (1)



(138) LE 1ª edição:  O Perispirito é parte integrante e inseparável do espírito ?
"Não; o espírito pode privar-se dele."

Devemos notar que muitos espíritas não tiveram conhecimento dessa mudança, e que também, não perceberam que no livro dos médiuns, Kardec, rejeita o termo possessão e anos depois em o livro a Gênese, admite a possibilidade da possessão.
Isso demonstra o caráter progressista e lógico do sistematizador do espiritismo, deixando claro que a "doutrina Espírita", é de caráter impessoal, que não pertence a ele e não se fundamenta em um homem. Por isso o termo "Doutrina Dos Espíritos"
Amigos, verdadeiras batalhas são travadas dentro dos centros espíritas em nome da pureza doutrinária.
Qualquer ação, pergunta, questionamento sobre a postura de determinados dirigentes ou adeptos que têm novas idéias, vontade de melhoria, são colocadas como antidoutrinárias.
Assim, aquele ou aquela irmã que teve a idéia inovadora é visto como alguém que proferiu tamanha "heresia" recebendo de pronto o bilhete azul (forma de não aceitar mudanças), sendo taxados de obssidiados, doentes e desequilibrados. E ainda, qualquer um que tentar argumentar a favor também é colocado na "Geladeira" do movimento fundamentalista Espírita. Isso existe em muitas Federativas e não está ausente dos centros espíritas, esta bem perto de nós.
Médiuns são colocados na berlinda e taxados em público de mistificadores, embusteiros, não há respeito pelas pessoas, pelo caráter do cidadão, sua família, sua vida social, simplesmente, de uma dia para outro ele é colocado no nosso tão conhecido quadro de "Obssidiado do ano", e seus livros (se os pública) vão para o Index Librorum Prohibitorum ou Index Librorvm Prohibithorvm ("Índice dos Livros Proibidos" ou "Lista dos Livros Proibidos" - lista de publicações proibidas pela Igreja Católica, de "livros perniciosos" contendo, ainda, as regras da igreja relativamente a livros (2)).
O "Index Librorum Prohibitorum Espírita" surge como uma campanha em prol da "pureza" sem perceber que estamos cometemos os mesmos enganos do passado.
Guerras homéricas são travadas discutindo-se sobre quem sabe mais e quem está com a verdade doutrinária, onde na verdade não deveríamos falar que Kardec é a base, mas sim o alicerce, e, como tal, há de se esperar que outros andares do edifício do conhecimento cheguem até nos, sem necessidade do aval da Federação Espírita Brasileira e suas federativas regionais e nem de "presidentes vitalícios" de centros espíritas ou federativas com suas mentes atávicas e sem vontade de estudar.
Talvez seja hora de revermos a história. Nossa participação nela é um fato reencanatório, por isso, nosso apego a antigos dogmas, misticismos e deslumbres de poder sacerdotal.
Vejamos:
Primeiro: para sermos salvos, temos que abdicar de sermos cristãos, para ilustrar acompanhemos os trechos da história de Joana de Cusa:
Segundo crônicas do historiador latino Tácito, fiéis do Cristo, amarrados, cobertos de alcatrão, eram usados como tochas humanas para as insônias de Nero nos passeios noturnos nos jardins da sua residência privada, a Domus Áurea (Casa Dourada), no Monte Aventino.
Ao comando da sua maldade, tendo acusado de terem ateado fogo a Roma, foram executados de 200 a 300 mil cristãos.
No dia 27 de agosto de 68, nas proximidades das águas termais de Caracala, no Monte Aventino, Joana, junto a outros 500 cristãos, foi levada ao poste do martírio. De cabelos nevados, ela ouve as queixas de um homem novo, amarrado ao poste próximo.
É seu filho que exclama, entre lágrimas: "Repudia a Jesus, minha mãe!... Não vês que nos perdemos?! Abjura!.Por mim, que sou teu filho!..."
As lágrimas acodem aos olhos daquela mulher. Pela sua mente passam rapidamente as cenas de sua juventude, os primeiros anos do casamento, os dissabores, as alegrias da maternidade, as lutas, a viuvez, as necessidades mais duras.
Lembra de Maria, mãe de Jesus, que assistira, por horas, o suplício do seu amado filho. Por fim, acode-lhe à memória à tarde memorável do particular encontro com o Mestre e suas palavras de despedida: "Vai filha! Sê fiel!"
E pede ao filho que se cale conclamando-o à fidelidade a Deus. As labaredas lhe lambem o corpo e ela abafa, no peito, os gemidos. A massa de povo grita, desvairada.
Um dos verdugos se aproxima dela e lhe pergunta, irônico: "O teu Cristo soube apenas ensinar-te a morrer?"
A resposta, corajosa, se deu num murmúrio: "Não apenas a morrer, mas também a vos amar!"
E sentindo uma mão suave a lhe tocar os ombros, escutou a voz inconfundível do Divino Pastor: "Joana, tem bom ânimo! Eu aqui estou!"
Triunfante, ela transpôs o pórtico da morte para adentrar na verdadeira vida. (3)

 

Tempos depois: temos que jurar que somos cristãos.

Inquisição

O termo Inquisição refere-se a várias instituições dedicadas à supressão da heresia no seio da Igreja Católica.
O condenado era muitas vezes responsabilizado por uma "crise da fé", pestes, terremotos, doenças e miséria social, sendo entregue às autoridades do Estado, para que fosse punido.
As penas variavam desde confisco de bens e perda de liberdade até a pena de morte, muitas vezes na fogueira, método que se tornou famoso, embora existissem outras formas de aplicar a pena.
O delator que apontava o "herege" para a comunidade, muitas vezes garantia sua fé e status perante a sociedade (qualquer semelhança com o movimento espírita " é simplesmente verdade").
Ao contrário do que é comum pensar, o tribunal do Santo Ofício era uma entidade jurídica e não tinha forma de executar as penas. O resultado da inquisição feita a um réu era entregue ao poder secular.
A instalação desses tribunais era muito comum na Europa, a pedido dos poderes régios, pois queriam evitar condenações por mão popular. Diz Oliveira Marques em História de Portugal, tomo I, página 393: «(…) A Inquisição surge como uma instituição muito complexa, com objetivos ideológicos, econômicos e sociais, consciente e inconscientemente expressos. "A sua atividade, rigor e coerência variavam consoante a época.»
No século XIX, os tribunais da Inquisição foram suprimidos pelos estados europeus, mas foram mantidos pelo Estado Pontifício. Em 1908, sob o comando do Papa Pio X, a instituição foi renomeada "Sacra Congregação do Santo Ofício". Em 1965, por ocasião do Concílio Vaticano II, durante o pontificado de Paulo VI e em clima de grandes transformações na Igreja após o papado de João XXIII, assumiu seu nome atual - "Congregação para a doutrina da Fé". (4)
Apesar da visão ultrapassa de muitos companheiros espíritas, o codificador , tem propostas Cristãs para as instituições "dito" espíritas, vejamos :

Allan Kardec e a convivência em grupo

"Se um grupo quiser estar em condições de ordem, de tranqüilidade, é preciso que nele reine um sentimento fraterno. Todo grupo ou sociedade que se formar sem ter por base a caridade efetiva não terá vitalidade; enquanto que os que se formarem segundo o verdadeiro espírito da doutrina olhar-se-ão como membros de uma mesma família que, não podendo viver todos sob o mesmo teto, moram em lugares Diversos".
Revista Espírita de 1862 - p.34

 

Allan Kardec e o verdadeiro espírita

"Tendo por objetivo a melhora dos homens, o Espiritismo não vem procurar os perfeitos, mas os que se esforçam em o ser, pondo em prática os ensinos dos espíritos. O verdadeiro espírita não é o que alcançou a meta, mas o que seriamente quer atingi-la".

Revista Espírita de 1861 - p.394 Como era Allan Kardec


 

"A tolerância absoluta era a regra de Allan Kardec.

"Seus amigos, seus discípulos pertencem a todas as religiões: israelitas, maometanos, católicos e protestantes das mais diferentes seitas; pertencem a todas as classes: ricos, pobres, cientistas, livres-pensadores, artistas e operários, etc."
Comentário de E. Muller, contemporâneo e amigo de Kardec. (5)
Kardec e o progresso;
"Somente as religiões estacionárias podem temer as descobertas da Ciência, as quais funestas só o são às que se deixa distanciar pelas idéias progressistas, imobilizando-se no absolutismo de suas crenças. Elas, em geral, fazem tão mesquinha idéia da Divindade, que não compreendem que assimilar as leis da Natureza, que a Ciência revela, é glorificar a Deus em suas obras. Na sua cegueira, porém, preferem render homenagem ao Espírito do mal, atribuindo-lhe essas leis. Uma religião que não estivesse, por nenhum ponto, em contradição com as leis da Natureza, nada teria que temer do progresso e seria invulnerável."
A GÊNESE, CAP. IV, ITEM 10.

 
E ainda caros amigos, nós nos denominamos Espíritas cristãos, e o Cristo? Onde está? Porque não faz parte de nossas ações? Principalmente dentro das instituições Espíritas, onde se vangloriam de conhecer mais, de saber mais, de ler mais, etc.?
Porque nos intelectualizamos e esquecemo-nos de amar?
É por essas e tantas outras razões, que o mais sábio é refletirmos se realmente a doutrina espírita precisa de defensores? Pois, se é verdadeira, ninguém vai tira- lá de seu curso ou macular sua pureza.
Por trás dessa luta em defesa da "pureza doutrinária, muitos excessos tem sido cometidos e verdadeiras batalhas são travadas muitas no campo do pensamento, entre sorrisos falsos e abraços "supostamente" cordiais.
A coisa mais antidroutrinária que conheço é justamente o "não amar", pois, fere uma lei Divina, a lei de amor e contraria os ensinos do Mestre Nazareno "amor em ação".
Para sermos os cristãos de verdade, precisamos viver o cristo nas ações e palavras, para que, finalmente e definitivamente, o Cristo viva em nós.

 
Leonardo Pereira
Designer Gráfico, orador espírita e um dos trabalhadores do Grupo Espírita Lamartine Palhano Junior em Goiabeiras, Vitória - ES
  1. – O primeiro livro dos espíritos de Allan Kardec – Abreu, Cannuto de – 1957 – no primeiro centenário de publicação de o Livro dos espíritos.
  2. Wikipédia – Enciclopédia Livre
  3. .XAVIER, Francisco Cândido. Joana de Cusa. In:___. Boa nova. Pelo espírito Humberto de Campos 8. Ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 1963. Cap. 15.
  4. Wikipédia – Enciclopédia Livre
  5. Recomendamos aos que o desejarem, a leitura da obra "ALLAN KARDEC" (Meticulosa Pesquisa Biobibliográfica e Ensaios de Interpretação), de Zeus Wantuil e Francisco Thiesen, em três volumes, na qual se encontram valiosos subsídios para o conhecimento da vida e obra do Mestre Allan Kardec. - Nota da FEB.
Dicionário Aurélio.


Imagem retirada do site: http://forums.cgsociety.org/showthread.php?t=817561